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Perspectivas

Documentos expõem conspiração israelense para facilitar ataque de 7 de outubro

Primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu participa em coletiva de imprensa com ministro da Defesa, Yoav Gallant, e ministro de gabinete, Benny Gantz, na base militar de Kirya em Tel Aviv, Israel, 28 de outubro de 2023. [AP Photo/Abir Sultan]

Publicado originalmente em 2 de dezembro de 2023

No dia 1º, o New York Times publicou uma reportagem estabelecendo de forma conclusiva que Israel estava informado em detalhes dos planos do Hamas para atacar sua fronteira, que foram levados adiante em 7 de outubro. Essas revelações deixam claro que as autoridades israelenses, sabendo muito bem onde e como o Hamas atacaria, tomaram a decisão deliberada de permanecer parados para facilitar o ataque.

Essas revelações significam que o governo israelense permitiu e foi cúmplice no assassinato de seus próprios cidadãos e que o governo israelense é responsável pelas mortes ocorridas naquele dia. Essa conspiração criminosa possuía como objetivo estabelecer o pretexto para o genocídio, planejado muito antes, contra o povo de Gaza.

Além disso, é impossível acreditar que os Estados Unidos não estavam informados sobre os planos do Hamas, sob condições em que não apenas a inteligência israelense, mas também o Egito, possuíam alertas prévios ao ataque. Tudo aponta para uma conspiração que envolveu Israel, o governo Biden e, provavelmente, agências de inteligência britânicas e europeias.

O Times publicou essa reportagem no dia 27, quando Israel lançou uma nova onda de ataques contra Gaza durante uma visita de Antony Blinken. A presença do secretário de Estado dos EUA possuía como objetivo não apenas expressar o apoio dos Estados Unidos ao novo ataque, mas também mitigar a resposta à exposição dessa conspiração.

O Times noticiou:

O documento de aproximadamente 40 páginas, que as autoridades israelenses batizaram com o codinome “Muro de Jericó”, delineou, ponto a ponto, exatamente o tipo de invasão devastadora que levou à morte de cerca de 1.200 pessoas.

O Times apontou que o documento obtido pelas forças de inteligência israelenses “descreveu meticulosamente o método de ataque, espelhando os eventos reais. O documento delineou um intenso ataque com o objetivo de romper as fortificações da Faixa de Gaza, tomar cidades israelenses e atingir as principais bases militares. Esse plano foi implementado com uma precisão alarmante, envolvendo o uso coordenado de foguetes, drones e forças terrestres”.

O Times apontou:

O Hamas seguiu o plano com chocante precisão. O documento previa uma barragem de foguetes no início do ataque, drones para derrubar as câmeras de segurança e metralhadoras automatizadas ao longo da fronteira e homens armados para entrar em Israel em massa em parapentes, motocicletas e a pé – tudo isso aconteceu em 7 de outubro.

Além disso, segundo o Times, as autoridades militares e de inteligência israelenses sabiam que o Hamas havia realizado uma exaustiva missão de treinamento durante um dia inteiro para praticar o plano em detalhes apenas três meses antes do ataque. O Times afirmou:

O treinamento incluiu um treino de abate de aeronaves israelenses e a tomada de um kibbutz e de uma base de treinamento militar, matando todos os cadetes. Durante o exercício, os combatentes do Hamas utilizaram a mesma frase do Alcorão que aparecia no topo do plano de ataque no documento Muro de Jericó.

Mesmo reconhecendo que Israel estava exaustivamente informado sobre os planos do Hamas, o Times procura apresentar as revelações com um álibi, afirmando, sem qualquer comprovação, que as autoridades israelenses simplesmente cometeram um erro. O jornal escreveu:

A base de todos esses fracassos foi uma crença única e fatalmente imprecisa de que o Hamas não possuía a capacidade de atacar e não ousaria fazer isso. Essa crença estava tão arraigada no sistema israelense segundo as autoridades, que eles desconsideraram as crescentes evidências do contrário...

As falhas em ligar os pontos ecoaram outra falha analítica há mais de duas décadas, quando as autoridades americanas também possuíam várias indicações de que o grupo terrorista Al-Qaeda estava preparando um ataque.

Não, a paralisação de Israel em 7 de outubro não foi uma falha em “ligar os pontos”, porque não havia pontos para serem ligados. As forças de inteligência israelenses obtiveram todo o plano operacional do ataque de 7 de outubro e, em seguida, testemunharam o Hamas realizar um grande exercício de treinamento de alto nível para esse plano. Eles sabiam exatamente o que estava planejado e decidiram permitir a sua execução.

O Times escreveu: “As autoridades militares e de inteligência israelenses descartaram o plano como uma aspiração, considerando-o muito difícil de ser executado pelo Hamas”. O jornal acrescenta: “Não está claro se o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ou outros líderes políticos importantes viram o documento”.

Essa apresentação é absurda. É impossível acreditar que informações desse tipo possam chegar às mãos das agências de inteligência sem provocar a mais intensa análise. A ideia de que, após o 11 de setembro, esses planos de alto nível seriam ocultados do primeiro-ministro não pode ser acreditada.

Esse documento teria vindo de uma fonte nos mais altos escalões do Hamas. Uma vez que essa valiosa informação foi obtida, teria sido vital tomar medidas para proteger a sua fonte, incluindo contramedidas para fazer o Hamas acreditar que Israel não possuía a informação. A inação poderia ter sido um meio de sinalizar que o plano do Hamas não havia sido exposto.

Por fim, a decisão foi tomada de permitir que a operação do Hamas fosse levada adiante, a fim de fornecer a Israel um pretexto para um ataque militar massivo e planejado há muito tempo em Gaza. Somente Netanyahu poderia tomar essa decisão. Os Estados Unidos, por sua vez, enviaram imediatamente uma força militar massiva para a região, anunciando o envio de seu maior porta-aviões e navio de escolta 24 horas após o ataque.

A alegação do Times de que a paralisação de Israel foi uma “falha de inteligência” não faz sentido porque é uma mentira do início ao fim. Os eventos de 7 de outubro não foram uma falha de inteligência: Israel foi notavelmente bem-sucedido em prever com exatidão a operação militar do Hamas. Em vez de agir com base nessas informações, Israel orquestrou a inativação das tropas e da coleta de informações no exato momento em que ocorreu o ataque.

Quatro dias após o ataque de 7 de outubro, o jornalista veterano Seymour Hersh relatou que, nos dias que antecederam o ataque, “as autoridades militares israelenses locais, com a aprovação de Netanyahu, ordenaram que dois dos três batalhões do exército, cada um com cerca de 800 soldados, que protegiam a fronteira com Gaza, mudassem seu foco para o festival de Sukkot” que acontecia perto da Cisjordânia.

Hersh citou uma fonte que lhe disse: “Isso deixou apenas 800 soldados (...) responsáveis pela guarda da fronteira de 51 quilômetros entre a Faixa de Gaza e o sul de Israel. Isso significa que os cidadãos israelenses no sul ficaram sem a presença militar israelense por dez a doze horas. Eles foram abandonados”.

A inação não apenas deixou a fronteira vulnerável a ataques, como também criou condições para que as forças militares fossem transferidas para interceptar os atacantes do Hamas em áreas civis, criando condições para que as forças de tanques e helicópteros israelenses atirassem indiscriminadamente nessas áreas, aumentando ainda mais o número de mortos israelenses.

Além da inação militar, Israel tomou a decisão de colocar sua famosa unidade de inteligência, 8200, de folga aos fins de semana, o que significa que a unidade de inteligência que detectou o exercício de treinamento três meses antes não estava em serviço no momento do ataque de sábado, 7 de outubro.

A revelação do conhecimento prévio de Israel sobre o ataque também expõe a mídia e o establishment político dos EUA, que abraçaram completamente as declarações de Israel de que foram surpreendidos pelo ataque e que os eventos de 7 de outubro justificam o genocídio que está sendo desencadeado em Gaza.

Essas revelações expõem o genocídio de Gaza como uma conspiração criminosa do regime de Netanyahu e de seus apoiadores imperialistas, cujas vítimas incluem não apenas 20 mil palestinos massacrados, mas a própria população israelense.

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