Português

Cientistas renomados que estudam a COVID-19 exigem ação contra a COVID longa

Publicado originalmente em 22 de fevereiro de 2024

Um artigo de perspectiva sobre a COVID longa, escrito por Ziyad Al-Aly e Eric Topol, foi publicado hoje na revista Science. Ele analisa o conhecimento atual da comunidade científica sobre a condição, bem como as lacunas remanescentes no conhecimento que são fundamentais resolver. O artigo conclui com recomendações de políticas sobre como a sociedade deve avançar no estudo, prevenção e tratamento da COVID longa.

Os autores são acadêmicos renomados e especialistas em COVID longa. Dr. Al-Aly é médico-cientista da Washington University em St. Louis, no estado de Missouri (EUA). Ele tem várias publicações de alto impacto sobre a COVID-19 e a COVID longa e recentemente prestou depoimento ao Congresso dos Estados Unidos em uma audiência dedicada à condição. Entre outros trabalhos importantes, ele liderou estudos sobre os perigos de reinfecções por COVID-19, os efeitos da COVID longa após mais de dois anos e a comparação dos efeitos da COVID-19 e da influenza.

Dr. Al-Aly [Photo: Dr. Al-Aly]

Dr. Topol é cientista e vice-presidente executivo de pesquisa do Instituto Scripps. Ele foi o autor principal de um importante artigo de revisão sobre a COVID longa publicado na Nature Reviews Microbiology. Ele escreveu um artigo crítico na Science no início da pandemia, detalhando os impactos da COVID-19 no coração.

Esses cientistas iniciam sua perspectiva resumindo o que é conhecido. A condição afeta todos os órgãos do corpo humano e é frequentemente debilitante. Milhões de pessoas têm COVID longa. De fato, outros cientistas estimam que 400 milhões de pessoas em todo o mundo sejam afetadas pela COVID longa. Ela atinge pessoas de todas as faixas etárias, sexo e composição genética.

Eric Topol [Photo by Juhan Sonin / CC BY 4.0]

Como observam os autores, “A Covid longa terá efeitos de amplo alcance que ainda não foram totalmente avaliados”.

Os fatores de risco incluem infecção grave e reinfecção pelo vírus. Embora a COVID-19 grave esteja associada a um risco maior de desenvolver a COVID longa, infecções leves ou até mesmo assintomáticas pelo vírus SARS-CoV-2 podem causar a COVID longa. Cada reinfecção aumenta o risco de desenvolver algum sintoma associado à COVID longa.

Possíveis mecanismos fisiopatológicos implicados na ocorrência de manifestações agudas e de “COVID longa” no sistema nervoso central (SNC) [Photo: "Neurological manifestations of long-COVID syndrome: a narrative review"]

Várias hipóteses para a etiologia da COVID longa foram apresentadas e para as quais há cada vez mais evidências. Elas incluem reservatórios persistentes do vírus; disfunção mitocondrial induzida pelo vírus; desregulação imunológica, incluindo doenças autoimunes e inflamação de vasos sanguíneos e tecidos neurais, e interrupções no microbioma.

Além de evitar a infecção pelo SARS-CoV-2, a COVID longa pode ser prevenida por vacinas e medicamentos. As vacinas reduzem o risco em 15% a 75%. A combinação antiviral de ritonavir e nirmatrelvir (conhecida como Paxlovid) reduz o risco em 26%. Um estudo controlado e randomizado do medicamento para diabetes metformina constatou que ele reduziu o risco em 41%.

O artigo continua detalhando os desafios de cuidar de pacientes com COVID longa:

Apesar desse conhecimento acumulado sobre os mecanismos, a epidemiologia e a prevenção, há vários desafios consideráveis. É importante ressaltar que as necessidades de cuidados das pessoas com COVID longa não são atendidas. Os pacientes geralmente são recebidos com ceticismo, e seus sintomas são descartados como psicossomáticos. A atribuição dos sintomas a causas psicológicas não tem apoio científico…

Os autores concluem com várias recomendações e um alerta. Em primeiro lugar, eles pedem mais pesquisas - e níveis muito maiores de financiamento governamental para apoiá-las - sobre vários aspectos da COVID longa, desde uma melhor definição da condição até uma maior elucidação dos mecanismos biológicos de sua gênese, a determinação de sua trajetória e seus resultados de longo prazo, a criação de modelos animais para facilitar pesquisas futuras e, finalmente, o desenvolvimento de mais e melhores tratamentos.

Em segundo lugar, eles fazem várias recomendações de políticas. Uma delas é fortalecer a epidemiologia e a capacidade de vigilância de doenças do sistema de saúde pública, que foi devastado antes da pandemia e, apesar de um breve ressurgimento impulsionado pela resposta à pandemia, tem sido cada vez mais desmantelado.

Alguns dos sintomas mais comuns da COVID longa.

O principal facilitador do desmantelamento da vigilância foi a declaração da Organização Mundial da Saúde sobre o fim da emergência de saúde pública devido à COVID-19. Essa ação permitiu que os governos de todo o mundo voltassem aos níveis pré-pandêmicos de apoio à vigilância de doenças, encerrando assim quase toda a coleta de dados e relatórios sobre a COVID-19 e terminando o popular painel de controle da COVID-19 criado por cientistas da Universidade Johns Hopkins.

Outra recomendação é atender às necessidades de saúde não atendidas dos pacientes com COVID longa. Os autores defendem o “treinamento de prestadores de serviços de saúde para reconhecer e gerenciar a COVID longa, expandindo o acesso a clínicas especializadas e desenvolvendo caminhos de atendimento que possam ser adaptados em ambientes com poucos recursos”.

Por fim, os autores recomendam uma ênfase renovada nas medidas de saúde pública para prevenir a infecção e a reinfecção. Eles afirmam: “A reinfecção, que agora é o tipo dominante de infecção por SARS-CoV-2, não é inconsequente; ela pode desencadear a COVID longa de novo ou exacerbar sua gravidade.”

Notavelmente, eles pedem maior ênfase e adoção de medidas não farmacológicas, incluindo a filtragem de ar e o uso de máscaras, argumentando: “A atualização dos códigos de construção para exigir a mitigação contra patógenos transmitidos pelo ar e garantir um ar interno mais seguro deve ser tratada com a mesma seriedade atribuída à mitigação dos riscos de terremotos e outros perigos naturais”.

Eles também enfatizam as campanhas para aumentar a aceitação de vacinas e o desenvolvimento e a aplicação generalizada de vacinas administradas por via nasal.

Os autores terminam alertando para o fato de que há uma “necessidade urgente” de enfrentar os desafios apresentados pela COVID longa, concluindo: “O mundo deve estar à altura da situação e enfrentar esses desafios; a saúde e o bem-estar das gerações atuais e futuras dependem disso.”

A publicação deste artigo coincide com a notícia de que as infecções por COVID-19 estão aumentando inesperadamente. Em vez dos padrões sazonais anteriores de uma queda significativa nas infecções em fevereiro, após a explosão usual em janeiro devido às festas de fim de ano, os dados recentes de monitoramento de esgoto demonstram que os níveis de infecção ainda estão aumentando. Estima-se que haja 1,35 milhão de infecções por dia somente nos Estados Unidos, e os níveis gerais de COVID-19 são mais altos do que durante 86% do tempo desde o início da pandemia.

Portanto, com o aumento das infecções e reinfecções, podemos esperar que outros milhões de pessoas desenvolvam a COVID longa nas próximas semanas e meses.

Por mais louváveis que sejam esses cientistas e suas recomendações, sua orientação política e sua breve análise de quem é responsável pela falta de progresso social em relação à COVID longa são mal direcionadas. Ao procurarem por responsáveis, eles se concentram apenas na extrema direita, escrevendo:

Ligada ao movimento anticientífico e antivacina, uma maré de negação da COVID longa está aumentando. Esse movimento semeia dúvidas sobre a escala e a urgência da COVID longa, confunde a COVID longa com eventos adversos pós-vacinação e busca impedir o progresso no atendimento às necessidades de cuidados das pessoas que sofrem dessa condição.

No entanto, ambos os partidos da classe dominante têm se mostrado impermeáveis aos apelos para priorizar a saúde das pessoas em detrimento dos lucros e da guerra. Nenhum tipo de apelo, petição ou súplica os dissuadiu da dizimação do sistema de saúde pública e das políticas de infecção e morte em massa. Joe Biden não mudou o curso das políticas de seu antecessor, tendo endossado totalmente a política anticientífica e anti-saúde pública de “imunidade de rebanho”.

De fato, os ataques à saúde pública só aumentam. Apenas nesta semana, enquanto surtos de sarampo surgiam em todo o país, Dr. Joseph Ladapo - o cirurgião geral notoriamente anticientífico, antivacinação e anti-saúde pública do estado da Flórida - recusou-se a fechar uma escola primária de Broward, onde já havia seis casos de sarampo. Em uma carta aos pais, ele também omitiu qualquer recomendação para vacinar seus filhos não vacinados. Por fim, e o que é mais grave, ele disse que os pais das vítimas de sarampo podem exercer seu próprio arbítrio para decidir quando as crianças infectadas possam voltar à escola.

Essas políticas são contrárias a mais de 100 anos de avanços na saúde pública que já haviam erradicado o sarampo nos Estados Unidos. Mas a culpa não é apenas de Ladapo. Conforme reportado na semana passada no World Socialist Web Site, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças de Biden estão abandonando suas diretrizes sobre o isolamento de pessoas com COVID-19.

Além disso, em uma audiência no mês passado sobre a COVID longa, nem Bernie Sanders nem qualquer outro membro do Comitê de Saúde, Educação, Trabalho e Pensões do Senado fez qualquer referência ao aumento da COVID-19 neste inverno nos EUA. Eles também não pediram o investimento maciço necessário para deter a pandemia.

A classe dominante tem demonstrado repetidamente que está comprometida com uma política de infecção, debilitação e morte em massa, e não apenas com relação à pandemia da COVID-19 e seus efeitos de longo prazo. Ela também está comprometida de forma inabalável com os horrores em Gaza e na Ucrânia.

Apelos repetidos aos políticos, não importa quão reconhecidas sejam as vozes dos cientistas, são ineficazes para mudar essas políticas. A única força capaz de acabar com a pandemia, acabar com a guerra e o genocídio e colocar o bem-estar das pessoas acima do das corporações é a classe trabalhadora internacional. Essa força só será bem-sucedida nessas tarefas com base em seu próprio programa e organização política socialista, totalmente separados dos partidos Republicano e Democrata e das organizações a eles vinculadas.

Loading