Estamos publicando a seguir o discurso proferido por David North, presidente do Conselho Editorial Internacional do World Socialist Web Site, na abertura do evento online realizado em 25 de junho pelo WSWS para marcar os 250 anos da Revolução Americana e da Declaração de Independência.
Esse aniversário ocorre em meio a um ataque cada vez mais intenso aos direitos democráticos e aos alicerces da democracia americana. O presidente tem falado abertamente sobre um regime ditatorial. Após perder a eleição de 2020, ele tentou anular o resultado e impedir a transferência pacífica de poder. Seu retorno à presidência em 2024, apesar desse ato criminoso, é um sinal não apenas do colapso das instituições democráticas, mas também de uma profunda erosão da consciência democrática.
Nessas condições, a Revolução Americana assume um significado contemporâneo imenso. Estes são tempos, como disse Tom Paine, que põem à prova a alma dos homens.
Não estamos apenas comemorando um aniversário nacional. A Revolução Americana nunca foi meramente um evento americano. Desde seus primórdios, reconheceu-se que ela tinha um significado histórico mundial. Quando Paine escreveu que “a causa dos Estados Unidos” era “a causa de toda a humanidade”, ele expressou o fato de que a luta nas colônias levantava questões universais: monarquia ou republicanismo, privilégios herdados ou soberania popular, subordinação colonial ou autogoverno.
A Guerra Civil, que surgiu da primeira Revolução, também teve um significado histórico mundial: ela aboliu a escravidão e voltou a colocar em questão se os princípios democráticos proclamados em 1776 poderiam se tornar realidade. Como a mais completa revolução democrática burguesa da história, ela criou as condições para o desenvolvimento explosivo do capitalismo e a emergência dos Estados Unidos como potência mundial dominante. Também deu origem a uma enorme classe trabalhadora e a uma história de violentos conflitos de classe, aos quais o desenvolvimento do grande movimento pelos direitos civis do século passado esteve indissociavelmente ligado.
Hoje, no entanto, o ataque político à democracia é acompanhado por uma negação do próprio legado revolucionário e democrático. No meio acadêmico e em grande parte do que se autodenomina “esquerda”, a Revolução Americana é apresentada não como um avanço histórico mundial, mas como um evento reacionário. Todos os documentos e estruturas políticas que prepararam e surgiram da Revolução são rejeitados.
A Declaração não é vista como uma declaração de princípios universais cujas implicações foram além das intenções de seus autores, mas sim como algo hipócrita e enganoso.
Mas afirmar que todo o brilhante trabalho político produzido para justificar a revolução — desde a vasta obra do Iluminismo europeu, que forneceu a inspiração intelectual e filosófica para a revolução e para a própria Declaração da Independência — não passou de uma tentativa de encobrir os objetivos contrarrevolucionários da luta americana pela independência é o mesmo que afirmar que Michelangelo pintou a Capela Sistina para encobrir uma rachadura no teto do Vaticano.
O conflito sobre o significado dos eventos históricos é legítimo e inevitável. Nenhuma história séria pode se basear na construção de um mito patriótico. A Revolução Americana nasceu em contradição: suas promessas foram negadas aos escravos, às mulheres, aos povos indígenas, aos trabalhadores sem propriedade e a muitos outros. Foi, para definir o evento em termos históricos e socioeconômicos adequados, uma revolução democrática burguesa.
A revolução não cumpriu tudo o que prometeu. A vida e a liberdade, sem falar na felicidade, são cada vez mais problemáticas nos Estados Unidos. E, dada a enorme concentração de riqueza que caracteriza a sociedade contemporânea, o que prevalece hoje em Washington está muito longe do que Lincoln tinha em mente quando falou de um governo do povo, pelo povo e para o povo.
Mas a história não pode ser compreendida por meio da denúncia moral. Uma atitude moralizante em relação ao passado não tem poder explicativo, muito menos no estudo das revoluções. Dizer que os fundadores eram hipócritas não explica por que ocorreu uma revolução, por que a Declaração adquiriu força além de suas intenções, nem por que sua linguagem foi adotada por abolicionistas, pessoas escravizadas, trabalhadores, socialistas e lutadores pelos direitos civis. E isso não explica como o mundo em que vivemos surgiu.
Uma teoria da história deve explicar mais do que um evento específico. Ela deve dar conta de amplos processos históricos: a Revolução Americana, a Guerra Civil, a Revolução Francesa, os acontecimentos de 1848, a ascensão do socialismo, os sindicatos industriais, a Revolução Russa, as lutas anticoloniais e os movimentos sociais do século XX.
É por isso que a substituição do conflito de classes pela teoria racial tem implicações tão abrangentes. Se o conflito racial se torna o eixo central da história, a classe trabalhadora vê sua importância reduzida como força histórico-mundial. O socialismo é separado das revoluções democráticas, cujas promessas não cumpridas ele buscava levar adiante. A Revolução de Outubro torna-se inexplicável em seus próprios termos — como produto da guerra, do conflito de classes, do colapso do Estado, da consciência socialista e da luta pelo poder dos trabalhadores.
A escravidão, o colonialismo e a opressão racial desempenharam um papel fundamental na história dos Estados Unidos. Mas não podem ser compreendidos separadamente da propriedade, do trabalho, do poder de classe, do imperialismo e do Estado.
A Declaração foi revolucionária não porque seus autores fossem moralmente puros, mas porque denunciava a ordem social e política vigente e clamava por sua derrubada nos termos mais abrangentes e universais. Ela forneceu o impulso político e ideológico para o extraordinário desenvolvimento econômico, a expansão territorial e a transformação social que se seguiram, levando um posto avançado colonial a se tornar um Estado-nação capitalista independente e cada vez mais poderoso.
Ao mesmo tempo, os princípios democráticos que evocava transcendiam as limitações objetivas impostas pela própria época em que surgiu. Aí residia o grande e duradouro poder da Declaração. Ela era tanto de seu tempo quanto do futuro.
A Declaração expressou, no sentido mais profundo, a dialética da história. Como explicou Marx: “A humanidade, portanto, inevitavelmente se propõe apenas aquelas tarefas que é capaz de resolver, pois um exame mais detalhado sempre mostrará que o próprio problema só surge quando as condições materiais para sua solução já estão presentes ou, pelo menos, em processo de formação”. Em 1776, as condições para a abolição da escravidão estavam apenas começando a surgir. Em 1861, as condições para a conclusão dessa tarefa já estavam ao alcance.
E a transição da primeira para a segunda fase da revolução democrática burguesa ocorreu de forma bastante rápida. A primeira era revolucionária não estava tão distante para aqueles que desempenharam papéis importantes na abolição da escravidão. Thaddeus Stevens, o maior dos republicanos radicais, nasceu nos primeiros anos da presidência de George Washington. Quando Abraham Lincoln nasceu, Thomas Jefferson ainda ocupava a recém-construída Casa Branca.
A Revolução Americana acelerou o movimento contra a escravidão. Em relação à nossa época, 87 anos — o intervalo de tempo entre a Declaração de 1776 e o Discurso de Gettysburg de 1863 — nos remete a 1939, o início da Segunda Guerra Mundial. Esse evento parece tão distante?
Na discussão sobre a Revolução, o que está em jogo não é apenas a interpretação do passado, mas a consciência política e a perspectiva necessárias para o futuro. Se a esquerda abandonar a tradição revolucionária-democrática, se tratar a igualdade, os direitos, a soberania popular e a emancipação universal como um puro engano, corre o risco de entregar essa tradição à reação. E é isso que está acontecendo.
A condição prévia para um debate sério deve ser uma atitude rigorosa em relação aos fatos. O século XX demonstrou as consequências catastróficas da falsificação histórica, sobretudo na deturpação da Revolução Russa, onde as mentiras justificaram a traição, a repressão e o assassinato em massa. Ainda não chegamos a esse ponto nos Estados Unidos. O colosso laranja inchado que imagina dominar o rio Potomac tem pés de barro. A oposição social cresce de forma constante. Mas a oposição dos trabalhadores e da juventude deve estar munida do conhecimento da história e de suas lições.
Este importante aniversário deve ser uma oportunidade para nos perguntarmos o que houve de revolucionário na Revolução, o que foi limitado, o que foi traído, o que foi levado adiante e o que permanece por resolver.
