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Traição da COB abre caminho para “estado de exceção” na Bolívia: lições estratégicas do levante operário

Parte 2

Esta é a segunda e última parte de uma série de artigos. A primeira parte pode ser lida aqui.

A crise boliviana como um “laboratório da luta de classes”

As implicações mais profundas da linha política dos morenistas emergiram em uma declaração programática sobre a crise boliviana publicada no suplemento semanal do La Izquierda Diario em 17 de junho. Intitulada “A rebelião na Bolívia e as encruzilhadas estratégicas que percorrem a América Latina”, foi assinada pelos dirigentes da Corrente Revolução Permanente, Josefina Martínez e Matías Maiello.

Mario Argollo, dirigente da COB, anuncia uma greve nacional indefinida durante o 1º de Maio, em El Alto. [Photo: Central Obrera Boliviana]

Eles concluem o artigo afirmando que a Bolívia é “um laboratório da luta de classes que concentra muitas das encruzilhadas estratégicas que atravessam a América Latina”. Isso é verdade, e a declaração deles expõe a posição morenista como irreconciliavelmente oposta aos interesses da classe trabalhadora.

A interpretação sociológica dos morenistas sobre o levante de massas que sacudiu a Bolívia ao longo dos últimos 50 dias se resume na afirmação de que “a questão da plurinacionalidade, assim como... o problema da terra”, são “bandeira de luta e grande motor da rebelião atual”. Eles fundamentam essa tese citando diretamente o ex-vice-presidente de Morales, Álvaro García Linera, sobre a impossibilidade de “governar sem os povos indígenas”.

A capitulação dos morenistas perante o Movimiento al Socialismo (Movimento ao Socialismo — MAS) é inequívoca. Seu artigo confere ao MAS — que permaneceu por quase duas décadas como o partido governante do Estado capitalista boliviano e sofreu um colapso histórico em 2025 — o atributo de ter sido “um veículo de conquistas para a população originária”.

O atual levante de massas na Bolívia, segundo os morenistas, tem o significado de abrir “a perspectiva estratégica de um novo bloco histórico operário, camponês e indígena” — ou seja, de uma nova armadilha burguesa após o naufrágio do MAS. “E este é um elemento central para a reflexão estratégica, inclusive para além da Bolívia”, declaram de forma reveladora.

Javo Ferreira, principal dirigente da LOR-CI, também é citado no artigo como referência central dessa perspectiva nacionalista pequeno-burguesa falida. Ferreira defende o “despertar nacional” indígena — “o orgulho do pertencimento étnico e cultural” — como “um fator altamente progressivo e um motor da luta de classes”, e enquadra a questão como uma de “libertação dos povos originários”. A concepção da libertação nacional toma o lugar de uma análise de classe, e as diferentes camadas sociais da população indígena são fundidas em um “povo” indiferenciado, cujos interesses materiais se dissolvem em uma identidade étnica comum.

A opressão das massas indígenas da Bolívia é real. Constitui uma profunda questão democrática enraizada em séculos de pilhagem colonial e capitalista.

Mas toda a história da Bolívia confirma o que a Teoria da Revolução Permanente de Leon Trotsky estabelece: essa questão democrática não pode ser resolvida sob o capitalismo nem por qualquer forma de nacionalismo burguês. Sua solução depende de a classe trabalhadora tomar o poder à frente das massas oprimidas, como parte da revolução socialista internacional.

O “bloco histórico operário, camponês e indígena” dos morenistas liquida essa compreensão, reduzindo o proletariado de classe dirigente a um componente de uma coalizão multiclassista na qual forças não-proletárias e, em última instância, burguesas mantém as rédeas políticas.

Essa fórmula tem o odor inconfundível do “bloco das quatro classes” stalinista imposto à revolução chinesa de 1925-27, que acorrentou os trabalhadores ao partido da burguesia, o Kuomintang, e conduziu ao seu massacre. É uma concepção nacionalista da revolução, isto é, uma concepção de uma revolução burguesa. Esse ataque à Teoria da Revolução Permanente emerge de uma revisão consciente na base da política da CRP, como o Grupo Socialista pela Igualdade (Brasil) estabeleceu com clareza em sua análise da mudança de nome deste agrupamento morenista.

A Assembleia Popular boliviana de 1971

As declarações da CRP/LOR-CI insistem em um modelo histórico para o presente: a Assembleia Popular boliviana de 1971. A escolha é profundamente significativa, pois esta é uma das experiências estratégicas decisivas da classe trabalhadora latino-americana e internacional.

Em 1970-71, a classe trabalhadora boliviana foi diretamente confrontada com a questão da tomada do poder político. Mas a traição da luta revolucionária dos trabalhadores a levou a ser massacrada pelos militares fascistas liderados pelo coronel Hugo Banzer.

Os sindicalistas da COB, os stalinistas e — acima de tudo — os pablistas do Partido Obrero Revolucionario (Partido Operário Revolucionário, POR) foram os responsáveis por essa amarga derrota. A promoção da Assembleia Popular por estas forças serviu como o principal mecanismo para desviar a classe trabalhadora do estabelecimento de sua independência política e a desarmou diante do Estado burguês.

Falsificando essa história, a declaração de 17 de junho do La Izquierda Diario proclama:

Ainda que não tenha chegado a ser um soviete ou conselho propriamente dito, como os sovietes da revolução russa de 1917, a Assembleia Popular foi concebida como uma instituição permanente do movimento de massas e apontava para uma centralização da aliança operária, camponesa e popular em torno do movimento operário. Um de seus grandes problemas foi que sua direção reformista não a concebeu como o órgão de um novo poder para derrotar o Estado burguês, mas como um organismo de pressão sobre o governo do general Torres. Mas é uma experiência enorme. Como faria falta hoje efetivar a greve geral e pôr de pé uma Assembleia Popular como a de 1971, para que os trabalhadores e camponeses tomem as rédeas da situação e possam derrotar Paz!

Os morenistas oferecem como solução à crise que confronta a classe trabalhadora boliviana em 2026 uma reedição da traição que a conduziu à mais trágica derrota de sua história.

A crise de 1971 girava em torno de uma questão fundamental. O general Juan José Torres, um oficial nacionalista-burguês com retórica “de esquerda”, liderava um regime preso entre uma classe trabalhadora insurgente e os fascistas no aparato de Estado e das Forças Armadas que se preparavam para afogá-la em sangue. A Assembleia Popular que se reuniu naquele maio — convocada pela COB, baseada nos sindicatos e, acima de tudo, entre os trabalhadores mineiros — concentrou a imensa energia combativa do proletariado boliviano. A questão que ela colocava era se a classe trabalhadora tomaria o poder, esmagando o Estado burguês e seu exército, ou seria subordinada a um regime burguês e desarmada diante da reação.

A direção da Assembleia deu a resposta fatal. A COB e o Partido Comunista stalinista, utilizando como cobertura as credenciais trotskistas do POR de Guillermo Lora, apoiaram uma resolução que declarava que o proletariado respaldaria as “medidas anti-imperialistas e progressistas” do governo Torres enquanto criticava suas medidas reacionárias. Isso subordinou a classe trabalhadora à burguesia nacional e marcou o abandono da Teoria da Revolução Permanente que o POR havia outrora aplicado à Bolívia em suas “Teses de Pulacayo”. Lora confiou que Torres armaria os trabalhadores contra os fascistas; Torres não armou ninguém. Banzer lançou seu golpe a partir de Santa Cruz, tomou La Paz em três dias contra a resistência heroica, mas precariamente armada, dos trabalhadores, e impôs sete anos de ditadura.

A caracterização de “soviete” que os morenistas agora ressuscitam foi o instrumento teórico dessa traição. Ao revestir a Assembleia com a autoridade de 1917, Lora e seus colaboradores pablistas acobertaram a realidade de sua dominação pelas direções stalinistas e sindicais e seu caráter, em última instância, burguês.

A traição pablista dos trabalhadores bolivianos foi combatida pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) à medida que se desenrolava, tratando-a como uma experiência estratégica da classe trabalhadora internacional. Em “Bolívia: Amargas Lições da Derrota”, escrito nove dias após o golpe de Banzer, o CIQI advertiu que a falha em tirar suas lições resultaria na repetição dessa derrota por todo o continente — uma advertência confirmada pelos golpes subsequentes no Chile, Uruguai, Peru e Argentina.

A luta por elevar 1971 ao nível de uma experiência estratégica internacional em oposição aos pablistas e à Organização Comunista Internacional (OCI) francesa, que deu cobertura a Lora enquanto rompia com o Comitê Internacional, foi inseparável da defesa do próprio trotskismo ortodoxo. Esta não é uma disputa acadêmica. A divisão entre o trotskismo genuíno e o revisionismo pablista foi escrita no sangue dos trabalhadores da Bolívia e da América Latina como um todo.

A Corrente Revolução Permanente pertence ao outro lado dessa divisão — junto com as burocracias pequeno-burguesas traidoras, contra a classe trabalhadora e sua revolução. Não por acaso, na ocasião da morte de Lora em 2009, o La Izquierda Diario o homenageou por sua “intransigência diante do regime burguês e da colaboração de classe”. Que ela responda agora à mais grave crise da classe trabalhadora boliviana em décadas ressuscitando a estratégia que produziu a catástrofe de 1971 é a mais completa confirmação da avaliação do CIQI. Isso demonstra, da forma mais aguda, a necessidade objetiva que confronta a classe trabalhadora boliviana: a construção de um partido revolucionário fundado nas lições estratégicas de sua própria história e incondicionalmente independente de todas as forças burguesas e pequeno-burguesas — os morenistas da LOR-CI entre elas.

Tal partido não pode ser construído sobre bases meramente nacionais. O levante boliviano é uma frente de um movimento internacional ascendente da classe trabalhadora, impulsionado por uma única crise global e confrontando uma única ofensiva do capitalismo imperialista. A revolução que começa no altiplano boliviano só pode ser completada na arena internacional sobre a qual o próprio capitalismo opera. Isso significa a luta pelos Estados Unidos Socialistas da América Latina e pelo socialismo mundial. Esta é a perspectiva sobre a qual a seção boliviana do Comitê Internacional da Quarta Internacional deve ser construída.

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