No domingo, 25 de outubro, milhões de trabalhadores e jovens brasileiros votaram contra a ascensão do fascismo. A virada que reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), foi impulsionada por um repúdio massivo a um novo governo dos Bolsonaro, que nas semanas anteriores levou multidões às ruas e trouxe às urnas milhões de trabalhadores e jovens que haviam se abstido em massa no primeiro turno.
Votaram também na expectativa de que o governo reeleito do PT desse um giro à esquerda e respondesse a suas necessidades sociais mais urgentes. Lula acenou com o fim da escala 6x1 e com isenções de impostos para as faixas de menor renda. No último debate, quando Flávio o chamou de “nove dedos”, insulto que destila o ódio da extrema direita à classe trabalhadora, Lula reagiu energicamente e lembrou que perdeu o dedo aos 17 anos, no turno da noite de uma fábrica metalúrgica. Segundo alguns analistas, essa resposta tocou fundo na classe trabalhadora e ajudou a garantir sua vitória.
O resultado das urnas foi imediatamente contestado. Já na segunda-feira, o capital financeiro deu seu próprio veredito: a Bolsa brasileira despencou, o dólar disparou e o governo reeleito passou a receber ordens para aplicar o mesmo programa de cortes que se esperava de seu adversário, ditadas com a autoridade de uma ditadura que não se submete a eleição alguma. Na quarta-feira, o candidato fascistoide derrotado, Flávio Bolsonaro, proclamava-se presidente do Brasil em solo americano, sob a proteção de Washington.
O poder colossal mobilizado pelo capital financeiro e pelo imperialismo americano, primeiro para intervir nas eleições e agora para determinar o programa do governo eleito sob a ameaça permanente de sua derrubada, coloca diante da classe trabalhadora brasileira a questão de quem de fato governa.
Um governo paralelo sob a proteção de Washington
Flávio Bolsonaro, senador do Partido Liberal (PL) e filho de Jair Bolsonaro — o ex-presidente fascista condenado a 27 anos de prisão pela fracassada tentativa de golpe de janeiro de 2023 —, fugiu do Brasil em desafio a uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) e foi recebido nos Estados Unidos com a aprovação expressa de Donald Trump. Horas depois de desembarcar em Miami, proclamou-se “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, trocando em seguida o título pelo eufemismo “o líder do Brasil”, e anunciou: “Vou liderar a oposição daqui”. Sua carta lança um “governo paralelo” sediado no estrangeiro: uma plataforma contrarrevolucionária, que conspira abertamente pela derrubada do governo eleito e apela a um golpe militar.
Trump, que declarou que a votação “pareceu mais uma eleição fraudada”, até agora não reconheceu Flávio como presidente. Essa posição ambígua legitima a tese da fraude e mantém uma arma engatilhada contra o governo eleito, que pode ser disparada quando as condições forem consideradas favoráveis.
O abrigo a Flávio coroa mais de um ano de guerra econômica e intervenção política aberta contra o Brasil: tarifas de 50% sobre “todo e qualquer produto brasileiro”, sanções contra os ministros da Suprema Corte brasileira, a designação das maiores facções criminosas do país como “organizações terroristas” e a recepção de Flávio na Casa Branca em plena campanha.
A intervenção do imperialismo americano manifestou-se também diretamente na campanha, em dois casos sob investigação: há indícios de que a Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, limitou a projeção da campanha de Lula, e um inquérito examina as relações da campanha bolsonarista com a Rockbridge Network, rede de doadores cofundada pelo vice-presidente americano, JD Vance. Essa intervenção se insere numa ofensiva pela dominação neocolonial da América Latina, que visa impor o controle direto sobre seus recursos estratégicos e combater a influência econômica chinesa, como parte dos preparativos de guerra de Washington contra a China.
As ordens do capital financeiro
Paralelamente a esse intervencionismo criminoso escancarado, os principais órgãos do capital financeiro internacional ditam ao governo eleito brasileiro suas exigências, num tom de comando que dispensa qualquer verniz diplomático.
A revista britânica The Economist publicou após a eleição um editorial intitulado “Os mercados estão consternados com a vitória surpreendente de Lula — e com razão”. O texto argumenta sem rodeios: ou o governo abandona suas promessas de campanha e se submete às exigências do capital, ou será reduzido a “cinzas”. A revista começa constatando que, “se os apoiadores de Lula estão eufóricos, os mercados estão apavorados”, e acrescenta que “têm razão”.
Lula é acusado de ter “minimizado a necessidade de disciplina fiscal” na campanha e de ter prometido “uma extravagância de grandes benesses”. O que os porta-vozes da oligarquia capitalista chamam de “extravagâncias” não passam, de fato, de migalhas — como a promessa de reajuste de benefícios assistenciais aos mais pobres e de transporte público gratuito aos finais de semana — que nem começam a enfrentar os níveis brutais de desigualdade social no país.
A Economist conclui taxativamente que os próximos quatro anos de mandato de Lula “terão de ser muito diferentes dos quatro anteriores” e que “não tem muito tempo para convencer os investidores de que mudará de rumo”. O último mandato de Lula, longe de ter expandido gastos sociais, foi um governo de ajuste fiscal, e a rejeição massiva que o PT sofreu no primeiro turno foi produto direto dessas políticas.
Seguem-se as ordens: Lula “deveria começar imediatamente nomeando um ministro da Fazenda em quem os investidores confiem” e “em seguida, deve anunciar um plano crível de reforma fiscal”.
O Financial Times foi ainda mais explícito sobre o mecanismo da chantagem. Lula “precisa conter os gastos públicos, ou sua mão poderá ser forçada por investidores cada vez mais relutantes em financiar seu governo”. O jornal lhe dita até as palavras: “Lula deveria começar mudando sua retórica”. E lembra que, durante a campanha, o presidente “disse que era ‘babaquice’, ou tolice, falar em aperto fiscal”. Lula deve ainda construir no Congresso “a coalizão mais ampla possível”, aprofundando as alianças de 2022, que, para o FT, não foram longe o bastante à direita. O próprio Lula indicou, em seu discurso de vitória, que esse é seu objetivo: “Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou trabalhar e aprovar as coisas”.
Os ditames da oligarquia financeira se resumem na frase com que a Economist encerra seu editorial: se Lula acreditar que sua vitória é “uma desculpa para redobrar as políticas que derrotaram Flávio, provocará uma crise fiscal e uma recessão profunda. Sua vitória dourada virará cinzas.” O que o capital exige é que o governo eleito aplique o mesmo programa de austeridade que a burguesia esperava de Flávio Bolsonaro — o mesmo que o FMI declarou “urgente” em escala global e que levou centenas de milhares de jovens e trabalhadores às ruas da França.
A Frente Ampla se prepara para obedecer
O governo não esperou a posse para responder. Na terça-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, sinalizou que as medidas de ajuste fiscal serão anunciadas em breve pela nova equipe de governo em formação.
Entre os nomes mais cotados para comandar a Fazenda estão o vice-presidente Geraldo Alckmin, apresentado na campanha como o homem que entende de ajuste fiscal, e Rafael Fonteles, governador do Piauí pelo PT e um dos coordenadores da campanha de Lula no segundo turno. Conhecido como o “Tarcísio da esquerda” — referência a Tarcísio de Freitas, governador bolsonarista de São Paulo —, Fonteles privatizou o saneamento do estado, concedeu rodovias e impôs uma regra de contenção de gastos por dez anos.
A pseudoesquerda já fornece a racionalização. Em artigo publicado após a eleição, Leonardo Attuch, editor do Brasil 247, um dos principais veículos alinhados ao PT, defende que o ajuste fiscal “não deve ser tabu” no quarto mandato. “É preciso reconhecer que a responsabilidade fiscal não é uma bandeira exclusiva da direita, dos bancos ou do mercado financeiro”, escreve, para em seguida vender a ideia cínica de que o ajuste seria benéfico “especialmente para os mais pobres”. A responsabilidade fiscal, conclui, “não deve ser vista como uma concessão ao mercado”.
O governo da Frente Ampla — a coalizão que reúne o PT e partidos da direita tradicional — está emparedado. Por seu próprio caráter de governo de coalizão da burguesia brasileira, ele está destinado a impor a agenda do capital. Mas os trabalhadores e jovens que garantiram a virada no segundo turno votaram esperando um governo voltado a seus interesses. Lula buscará um caminho de meias-medidas para o qual há pouquíssima margem de manobra. Quanto mais se prolongar a subordinação dos trabalhadores e jovens a esse governo e a seus aparatos sindicais e políticos, mais a desilusão se converterá em desmoralização — o terreno em que a extrema direita se fortalece e sobre o qual se prepara o próximo golpe.
Imperialismo e a estratégia da classe trabalhadora
O quadro parece o de um beco sem saída. Mas o beco sem saída é o de uma estratégia determinada — aquela que orienta as massas para as eleições, para a burguesia e seu Estado nacional apodrecido, e para a construção de “frentes democráticas” burguesas que servem apenas para enganar os trabalhadores e em nada combatem o fascismo.
Lenin explicou há mais de um século que o imperialismo não é uma política que um governo pode adotar ou abandonar, mas a fase histórica do capitalismo correspondente à dominação do capital financeiro. E é por isso que nenhum governo nacional burguês é capaz de efetivamente enfrentar o imperialismo. A luta contra o imperialismo é inseparável da luta contra o capitalismo e só pode ser travada pela classe trabalhadora, à frente das massas oprimidas, e em escala internacional.
Os jovens e trabalhadores que confrontam o capitalismo em crise encontram em toda parte um mesmo tipo de armadilha política: o governo de coalizão do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), na Espanha; a França Insubmissa (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, na França; os Socialistas Democráticos da América (DSA), nos Estados Unidos. A luta pela independência política da classe trabalhadora em relação ao PT e a seu governo, sustentado pela pseudoesquerda, tem por isso um significado estratégico internacional.
As coalizões políticas que essas forças defendem são herdeiras da tradição stalinista da Frente Popular, cujo cerne é minar a independência política da classe trabalhadora. O resultado dessa orientação política foi demonstrado uma e outra vez ao longo do século 20 em derrotas catastróficas para a classe trabalhadora.
No Chile, a Unidade Popular de Salvador Allende, eleita em 1970, buscou subordinar o levante revolucionário da classe trabalhadora aos limites da legalidade burguesa e depositou sua confiança no caráter “constitucionalista” das Forças Armadas, enquanto o governo de Richard Nixon ordenava à CIA que fizesse “a economia gritar” — a mesma arma que o capital financeiro ameaça brandir hoje contra o Brasil. Politicamente desarmados diante do imperialismo e do fascismo, os trabalhadores chilenos foram esmagados pelo golpe do general Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973. A questão estratégica central, ficou explícito, era a preparação da tomada do poder de Estado pela classe trabalhadora.
O poder do capital financeiro e do imperialismo parece implacável apenas do ponto de vista do Estado nacional. A mesma época histórica que concentra esse poder produziu seu antagonista: uma classe trabalhadora internacional mais numerosa e interligada do que nunca, que hoje se levanta contra o mesmo programa de guerra e austeridade, da França, da Grécia e da Itália ao Chile e ao México. No Brasil, os trabalhadores e jovens que votaram contra o fascismo vão se chocar com o ajuste exigido pelos mercados e aplicado pela Frente Ampla.
A tarefa decisiva é preparar essa luta: estabelecer a independência política da classe trabalhadora em relação a todas as frações da burguesia, organizar comitês de base independentes da burocracia sindical, ligados internacionalmente pela Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB), e armá-la com um programa socialista e internacionalista.
