Publicado originalmente em inglês em 24 de julho de 2026
Martín Mosquera, editor-chefe da Jacobin América Latina, publicou um extenso documento estratégico intitulado “Como derrotar Milei”, cujo objetivo é fornecer uma justificativa teórica para subordinar a classe trabalhadora argentina ao peronismo e a um “bloco progressista mais amplo” antes das eleições de 2027.
A revista Jacobin é o órgão de imprensa semioficial dos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês), uma corrente do Partido Democrata dos Estados Unidos. Sua ala internacional filiou-se formalmente, em 2023, ao Foro de São Paulo, o bloco regional que reúne partidos chavistas, peronistas e outros partidos nacionalistas-burgueses.
O seu argumento é o seguinte: a classe trabalhadora argentina sofreu uma “derrota social” que torna impossível a possibilidade de uma revolução. A luta contra o governo fascistoide do presidente Javier Milei será, portanto, decidida no terreno eleitoral, onde a esquerda deve oferecer ao peronismo um apoio “específico, crítico e delimitado”, e isso exige abandonar qualquer insistência “sectária” na independência política da classe trabalhadora em favor de blocos “unitários” que incluam forças burguesas e reformistas.
Na tentativa de dar um ar de credibilidade pseudo-marxista à sua posição, Mosquera falsifica as posições de Leon Trotsky e ressuscita uma calúnia de décadas atrás, segundo a qual Trotsky teria sido “sectário” em relação à França e à Espanha, a fim de reabilitar a Frente Popular. Todos os elementos desse argumento são falsos.
Mosquera é colaborador regular da International Viewpoint, publicação das organizações que compõem os resquícios do antigo Secretariado Unificado pablista e, de maneira mais geral, a escória da pseudoesquerda global. A publicação, por sua vez, o identifica como membro da Democracia Socialista, que descreve como “parte” da seção pablista na Argentina.
Na verdade, ele faz parte de um agrupamento que se autodenomina Poder Popular, aliado a tendências neoguevaristas. Ele exalta o legado de Mario Santucho, que por um breve período fundiu sua organização nacionalista pequeno-burguesa com o grupo liderado pelo pablista argentino Nahuel Moreno, antes de seguir a lógica da linha pablista de liquidação no castrismo e lançar uma luta guerrilheira armada que terminou em derrota catastrófica, ceifando muitas vidas, incluindo a sua própria.
A prova apresentada por Mosquera de uma “derrota social” na Argentina consiste em uma série de estatísticas: o menor número de greves em duas décadas (465 conflitos trabalhistas registrados em 2025), uma queda de 53% nos bloqueios de estradas dos piqueteros desde 2023 e o que ele chama de ausência de “processos sustentados de auto-organização no local de trabalho”. Ele define uma derrota social como “a perda da capacidade das classes populares de bloquear ofensivas regressivas que, em outro momento, teriam encontrado uma resistência muito mais intensa”.
Uma “derrota social” inventada para desarmar a classe trabalhadora
A prova apresentada por Mosquera de uma “derrota social” na Argentina consiste em uma série de estatísticas: o menor número de greves em duas décadas (465 paralisações e greves registradas em 2025), uma queda de 53% nos bloqueios de estradas dos piqueteros desde 2023 e o que ele chama de ausência de “processos sustentados de auto-organização no local de trabalho”. Ele define uma derrota social como “a perda da capacidade das classes populares de bloquear ofensivas regressivas que, em outro momento, teriam encontrado uma resistência muito mais intensa”.
“Não estamos na década de 1930”, argumenta ele, e “a revolução está fora do horizonte político”. A partir disso, ele chega à conclusão de que o aumento nos índices de aprovação de Myriam Bregman, figura de proa do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), não reflete “uma radicalização das massas em direção à esquerda” — trata-se apenas, argumenta ele, de simpatia pessoal entre amplas camadas da população.
Essa é apenas uma amostra do ritmo da luta que ele tenta minimizar, ignorando seus fatores subjacentes: a taxa de pobreza voltou a subir para 31,8%, os salários reais caíram entre 9% e 13% sob o governo de Milei e o governo, segundo a própria descrição do FMI, impôs “o ajuste fiscal mais significativo de uma economia em tempos de paz”. Já foram convocadas quatro greves gerais contra Milei, além de manifestações quase semanais de aposentados, a ocupação da fábrica de pneus FATE e inúmeras greves militantes em todo o país.
Mas, mais importante ainda, a crise da Argentina não se desenrola isoladamente; ela está se intensificando paralelamente à oposição em massa contra políticas semelhantes em toda a região e no mundo, incluindo uma greve geral de sete semanas na Bolívia. As guerras no Oriente Médio e na Europa, a escalada da agressão dos EUA na América Latina, as guerras comerciais em espiral alimentadas pelo nacionalismo econômico de Trump, a desaceleração estrutural da China, bem como a introdução da IA, da automação e de outros choques industriais, estão levando as tensões de classe em todo o mundo ao limite. A Argentina não é uma exceção a esse processo, mas uma de suas expressões mais marcantes.
A discrepância que Mosquera identifica entre a popularidade pessoal de Bregman e as pesquisas de opinião para a coalizão eleitoral FIT-U, da qual o PTS faz parte, é real, mas sua conclusão está incorreta. Uma base de eleitores em busca de uma alternativa à terapia de choque de Milei, incapaz de encontrá-la tanto no peronismo quanto em uma pseudoesquerda eleitoralmente marginal, não é prova de que não existam condições revolucionárias. É uma evidência exatamente do que Trotsky identificou no início do Programa de Transição: que “a crise histórica da humanidade se reduz à crise da direção revolucionária”. A própria receita de Mosquera, a subordinação ao peronismo, é uma fórmula para prolongar fatalmente essa crise, em vez de resolvê-la.
O renascimento da frente popular
Por ter descartado uma luta independente da classe trabalhadora pelo poder, a conclusão prática de Mosquera decorre automaticamente: “a luta para derrotar Milei provavelmente se deslocará para o terreno eleitoral”, onde o progressismo “está na defensiva, tentando evitar o pior”. Qualquer radicalismo de esquerda seria irresponsável, já que, em suas palavras, “construir uma versão de esquerda desse radicalismo não aproxima a esquerda das massas; ao contrário, a desconecta dos níveis reais de consciência e combatividade populares”.
A partir dessa premissa, ele chega à sua principal conclusão: “não se pode descartar algum tipo de apoio específico, crítico e delimitado àquela candidatura que estiver em condições reais de derrotar [Milei], provavelmente proveniente do peronismo ou de um bloco progressista mais amplo”. O “problema central do período”, escreve ele, é “como evitar o isolamento sectário sem diluir a independência política e como construir uma unidade que acumule força real para derrotar a reação”.
Esta é uma proposta de Frente Popular, adaptada a um período em que os partidos reformistas de massa do século XX já não existem. A política se restringe a “uma ação unitária, específica e transitória, estruturada em torno de um objetivo limitado e preciso: bloquear o caminho da reação e defender as liberdades democráticas ameaçadas”. A mobilização independente da classe trabalhadora para se opor a dezenas de milhares de demissões e à austeridade social draconiana — sem falar em sua luta pelo poder — não é meramente adiada. É redefinida, antecipadamente, como sectarismo.
Trotsky contra a Frente Popular: o que ele realmente escreveu
Para dar credibilidade a esse programa, Mosquera recorre à alegação feita por Perry Anderson, editor de longa data da New Left Review, de que Trotsky demonstrou “flexibilidade” em relação a alianças com setores não pertencentes à classe trabalhadora contra o nazismo e durante o caso Kornilov, em agosto de 1917, mas que, por outro lado, cometeu “erros sectários” ao se opor à Frente Popular na França e na Espanha. Essa é uma invenção grotesca.
Isso apaga a distinção que Trotsky levou anos para elaborar entre uma frente única de organizações operárias para a luta defensiva e um governo de Frente Popular que subordina politicamente a classe trabalhadora aos seus inimigos de classe.
Na Alemanha, Trotsky defendeu uma frente única dos trabalhadores comunistas (KPD) e socialdemocratas (SPD) contra os nazistas — uma ação conjunta entre dois partidos operários, cada um mantendo total independência política. Ele nunca propôs um governo de coalizão com o SPD, muito menos com partidos burgueses. Em dezembro de 1931, escreveu: “Nenhuma plataforma comum com a Social-Democracia... Marchar separadamente, mas atacar juntos!” O KPD stalinista rejeitou até mesmo essa unidade mínima, rotulando o SPD de “social-fascistas”; a classe trabalhadora alemã ficou dividida e foi esmagada, e Hitler assumiu o poder em janeiro de 1933.
O caso Kornilov, que Mosquera cita por meio de Anderson como prova da suposta flexibilidade de Trotsky, na verdade demonstra exatamente o método que ele aplicou posteriormente à França. Em agosto de 1917, os bolcheviques combateram o golpe do general Kornilov ao lado das tropas leais ao Governo Provisório liderado por Alexander Kerensky, sem, no entanto, conceder qualquer apoio político ao próprio Kerensky. A instrução de Lenin, citada por Trotsky em 1931, foi: “Lutaremos contra Kornilov, mas não apoiamos Kerensky... A distinção é delicada, mas não deve ser esquecida.”
Essa foi exatamente a abordagem de Trotsky em relação ao governo da Frente Popular de Léon Blum. Ele não defendeu uma oposição frontal; Mosquera cita uma carta de junho de 1936 de Trotsky aos seus apoiadores franceses, na qual ele previa que a próxima onda de ações dos trabalhadores não seria dirigida a Blum, mas às “duas centenas de famílias”, aos Radicais, ao Senado e ao comando do exército. “Não colocamos Léon Blum no mesmo saco que [os fascistas] de Wendel e La Rocque”, escreveu ele — exatamente como os bolcheviques haviam distinguido Kerensky de Kornilov enquanto lutavam contra ambos. O que Trotsky se opunha era à própria coalizão da Frente Popular entre o Partido Socialista de Blum e o Partido Radical: um governo subordinado ao Partido Radical, o partido do capital francês, cuja função era impedir que a classe trabalhadora usasse sua própria força para tomar o poder.
Mosquera atribui à vitória eleitoral da Frente Popular em 1936 o mérito de ter desencadeado a onda de greves gerais na França que se seguiu, bem como a mobilização paralela na Espanha contra Franco, como prova de que a “confiança” nas lideranças reformistas pode, por si só, desencadear a radicalização. Os fatos mostram o contrário. As greves de junho de 1936 expressaram uma onda revolucionária que já vinha se formando desde os distúrbios fascistas de fevereiro de 1934; a verdadeira função da Frente Popular, uma vez instalada, foi sufocar essa onda. O líder stalinista Maurice Thorez, cujo Partido Comunista deu apoio externo à Frente Popular, declarou: “É preciso saber como acabar com uma greve”, quando os acordos de Matignon foram assinados, trocando concessões temporárias pela ordem de que os trabalhadores voltassem às fábricas — concessões que a burguesia recuperou em menos de dois anos.
Trotsky chamou a Frente Popular de “uma sociedade para segurar os falidos do Partido Radical às custas do capital das organizações operárias”. Em 1938, o mesmo Partido Radical já governava por decreto contra a classe trabalhadora; e, em 1940, grande parte dele havia se aliado ao regime de Vichy e à colaboração com as forças de ocupação nazistas.
Durante a Revolução Espanhola, os trabalhadores e camponeses pegaram em armas, coletivizaram terras e fábricas e formaram milícias, não porque a Frente Popular — incluindo os socialistas, o Partido Comunista stalinista e os republicanos — tivesse vencido as eleições de 1936, mas porque compreenderam, corretamente, que uma vitória fascista significaria sua aniquilação. A revolução social em desenvolvimento foi, de fato, sistematicamente sufocada pelo governo da Frente Popular, sob a direção stalinista: desarmando as milícias, restaurando as relações de propriedade burguesas e liquidando fisicamente revolucionários e centristas, particularmente no POUM. O veredicto de Trotsky, em dezembro de 1937, foi contundente: “A vitória será da revolução socialista ou do fascismo”. Isso não foi sectarismo, mas uma previsão confirmada com a tomada do poder por Franco em 1939.
Radicalização por meio da “confiança”?
O núcleo teórico do argumento de Mosquera é a afirmação de que “em muitos casos, as massas não se radicalizam apesar de confiarem nas direções reformistas, mas por meio dessa confiança” — ou seja, que a mobilização popular normalmente só começa quando amplos setores percebem uma força política capaz de traduzir suas demandas em resultados concretos.
Isso inverte o registro histórico examinado acima. A classe trabalhadora tomou o poder em outubro de 1917 apenas porque havia rompido politicamente com Kerensky e passado a estar sob a direção do Partido Bolchevique. A confiança nas direções reformistas e stalinistas não produziu uma vitória revolucionária, mas sim uma derrota catastrófica: os trabalhadores alemães confiaram no SPD e no KPD, e Hitler triunfou; a onda de greves independentes que os trabalhadores franceses haviam construído foi desmobilizada pelo próprio governo que acabavam de eleger; a revolução espanhola foi sufocada pela Frente Popular.
Em cada caso, a ação independente da própria classe trabalhadora expressou e alimentou sua radicalização, mas somente na Rússia a classe trabalhadora dispunha do partido político necessário para conduzi-la ao poder. A confiança em Blum não foi a causa das greves de junho de 1936; foram as condições sociais intoleráveis e a confiança em sua própria força coletiva. Essa não é uma distinção acadêmica. Ela determina se um partido prepara a classe trabalhadora para lutar de forma independente pelo poder ou se posiciona, como faz Mosquera, para administrar a desilusão quando as direções que aconselhou os trabalhadores a confiar novamente os traem.
As questões que essa falsificação ignora
Os próprios exemplos de Mosquera confirmam o que ele nega. Ele menciona positivamente a coalizão entre o presidente Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores – PT) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (ex-governador de direita de São Paulo) no Brasil e a Nova Frente Popular na França como modelos de blocos “unitários e transitórios” que contiveram a extrema direita sem dissolver a esquerda nela. Mas Lula passou três anos implementando a disciplina fiscal e a “flexibilização” trabalhista exigidas pela burguesia internacional, enquanto o próprio bloco parlamentar da NFP entregou a presidência da Assembleia Nacional Francesa a um partidário de Emmanuel Macron, o “presidente dos ricos”, poucas semanas após sua fundação.
A mesma operação está sendo preparada agora para a Argentina, e isso está ocorrendo em duas frentes ao mesmo tempo. A tese da “derrota social” da Jacobin e a versão da própria FIT-U da “frente única” com os peronistas nos sindicatos e, cada vez mais, no Congresso, chegam a conclusões funcionalmente idênticas por caminhos diferentes.
A revista Jacobin afirma abertamente que as massas se radicalizam “por meio da confiança” nas direções reformistas; portanto, a esquerda deve atuar por meio e no âmbito de uma ampla frente eleitoral em apoio ao peronismo. O PTS morenista diz a mesma coisa em uma linguagem que soa mais militante: a tarefa não é conquistar a classe trabalhadora para a política revolucionária contra o peronismo e a burocracia sindical, mas construir órgãos permanentes nos quais peronistas, pessoas sem filiação política e de mentalidade revolucionária lutem “juntos”, partindo da premissa de que o esclarecimento programático pode esperar indefinidamente. Ambas as posições convergem em sua oposição a enfrentar a mesma tarefa essencial — a construção de um partido revolucionário independente que lute pela independência política da classe trabalhadora.
Essa convergência não é acidental. Ela tem um conteúdo de classe bem definido. Como o WSWS já explicou, a pseudoesquerda não é uma ala do movimento socialista que tenha feito escolhas táticas equivocadas. É a expressão política de uma camada privilegiada da classe média alta — hostil ao marxismo e ao movimento revolucionário independente da classe trabalhadora. Sua posição material está ligada ao aparato parlamentar, à burocracia sindical, às universidades e a certas profissões. Sua função histórica é confinar os movimentos de protesto social dentro dos limites seguros das instituições do regime burguês, disfarçados de diversas formas pela linguagem da política identitária, do reformismo nacional ou do eleitoralismo “de esquerda”.
Mosquera, professor de filosofia da Universidade de Buenos Aires, outros colunistas da Jacobin e a direção do PTS provêm, em sua esmagadora maioria, do mesmo meio acadêmico e profissional, ocupando posições adjacentes dentro dessa mesma camada social. A afinidade não é meramente social: como documentou o WSWS, o próprio conselho editorial da Jacobin América Latina inclui autoridades governamentais latino-americanas em exercício e ex-autoridades, o que confere ao “bloco progressista mais amplo” proposto por Mosquera um endereço concreto e já existente.
As disputas entre essas forças são uma briga interna sobre a melhor forma de administrar — e não de derrubar — a crise do capitalismo argentino para garantir seus privilégios sociais, seja por meio de um bloco eleitoral aberto com o peronismo, seja por meio de uma “frente única” para controlar a autoridade da burocracia sindical peronista sobre os trabalhadores.
O que falta é o partido revolucionário que Trotsky dedicou a vida a construir, justamente contra esse tipo de cobertura de “esquerda” para o regime capitalista. Impedir a construção desse partido é a verdadeira função comum ao apoio aberto da Jacobin ao peronismo e ao centrismo do PTS. Somente o Comitê Internacional da Quarta Internacional está lutando para construí-lo na Argentina e internacionalmente.
