Publicado originalmente em inglês em 6 de outubro de 2023, este artigo de Bogdan Syrotiuk, usando o pseudônimo de Stepan Geller, documenta a glorificação dos colaboradores nazistas da divisão Galícia da Waffen SS na televisão ucraniana, logo após a ovação de pé do parlamento canadense ao colaborador nazista ucraniano Yaroslav Hunka.
No final de setembro, durante uma visita oficial ao Canadá, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, junto com o Parlamento canadense, aplaudiu de pé um canalha nazista da 14ª Divisão Voluntária da Waffen-SS “Galícia”, que havia prestado juramento a Adolf Hitler, jurando servi-lo e obedecê-lo até a morte.
Foi com base nesse juramento ao Führer nazista que o criminoso de guerra Yaroslav Hunka lutou sob a suástica de Hitler.
A serviço de Hitler, os soldados da Divisão Galícia da Waffen-SS, cujas fileiras incluíam membros do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), cooperaram diretamente com as unidades da SS e a gendarmaria de Hitler. Um de seus muitos crimes foi a destruição das aldeias de Guta Penyatska e Bialyaki, onde se estima que 800 habitantes foram fuzilados ou queimados vivos na igreja ou em suas próprias casas. Enquanto estava estacionado na Eslováquia, um dos regimentos participou da repressão à Revolta Nacional Eslovaca em 1944. Depois disso, a divisão foi transferida para a Iugoslávia para combater os partisans.
Aquela salva de palmas não ressoou apenas sob as abóbadas do Parlamento canadense; ressoou também sobre os milhares de túmulos e as cinzas de milhões de pessoas vitimadas pelo fascismo.
E ela ainda não cessou, mas continua a ressoar. Encorajada pelo apoio das potências imperialistas, agora pode ser ouvida em diversos canais de televisão ucranianos, especialmente na Espreso TV.
A Espreso TV foi fundada por Mykola Knyazhytsky, que atualmente é membro da Verkhovna Rada (Parlamento ucraniano) pelo partido Solidariedade Europeia, do ex-presidente e “rei do chocolate” Petro Poroshenko. O canal foi ao ar em 24 de novembro de 2013, às 12h30, com uma transmissão ao vivo dos acontecimentos durante os protestos do Euromaidan em Kiev.
Tanto naquela época quanto hoje – ou seja, há quase dez anos – a Espreso TV vem defendendo o golpe de Estado de 2014, financiado e organizado pelo imperialismo americano e alemão, e tem se mantido alinhada a todas as políticas adotadas pelo regime autoritário de Kiev.
Atualmente, os proprietários do canal são Ivan Zhevago – filho do bilionário ucraniano e ex-parlamentar Kostyantyn Zhevago – e Larisa Knyazhytska, esposa de Mykola Knyazhytsky.
Além deles, o canal também é de propriedade de Arseniy Yatsenyuk, ex-deputado ucraniano e líder do partido que integrou a liderança unificada do Euromaidan junto com o partido Svoboda, de Oleh Tyahnybok, e o partido UDAR, de Vitali Klitschko, e de Inna Avakova, esposa do ex-ministro do Interior ucraniano Arsen Avakov. Após o golpe de 2014, o partido Svoboda tornou-se o primeiro partido abertamente antissemita e neonazista a ingressar em um governo europeu desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Mesmo antes da defesa de Hunka e da tentativa de reabilitação da Divisão Galícia da Waffen-SS, o canal já havia se destacado por transmissões que zombavam das vítimas do massacre fascista de 2 de maio de 2014 em Odessa.
Quando o mundo inteiro tomou conhecimento do incidente no Parlamento canadense, o canal de televisão inicialmente passou a pressionar o Instituto da Memória Nacional a sair em defesa de Zelensky e Hunka e a equiparar aqueles que lutaram no Exército Vermelho aos que lutaram na SS. Isso apesar do fato de que a esmagadora maioria dos ucranianos combateu nas fileiras do Exército Vermelho. Segundo algumas fontes, pelo menos 6 milhões de ucranianos morreram em suas fileiras, em comparação com os 9 a 10 mil que morreram lutando pelos nazistas na Divisão Galícia da Waffen-SS.
Depois, começaram a convidar acadêmicos ucranianos, primeiro o ex-chefe do Instituto da Memória Nacional, Volodymyr Vyatrovich, que é um admirador declarado do líder fascista ucraniano Stepan Bandera e do colaboracionista nazista Roman Shukhevych, além de ser deputado da Verkhovna Rada pelo partido de Petro Poroshenko. No terceiro dia após o incidente, convidaram Tatyana Shvidchenko, doutora em Ciências Históricas.
Shvidchenko começou reiterando o que Vyatrovich havia dito anteriormente: que a divisão não foi condenada no julgamento de Nuremberg e não é uma organização criminosa nazista, porque não foi mencionada na sentença do Tribunal de Nuremberg.
Isso é uma mentira. A Divisão Galícia fazia parte das forças da SS. Em toda a Europa ocupada, unidades da SS estiveram envolvidas no genocídio sistemático da população judaica, na deportação de pessoas que não eram de nacionalidade alemã, bem como em assassinatos em massa e no tratamento brutal de civis. A sentença do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg revelou a essência da estrutura, das tropas e das unidades militares da SS, expôs seus crimes e reconheceu todas as estruturas e componentes da SS, com exceção da cavalaria, como organizações criminosas.
Depois disso, a senhora Shvidchenko leu uma citação das memórias de Roman Danelyuk, que lutou, assim como Hunka, na Divisão Galícia da Waffen-SS:
Nós não estávamos lutando contra os Estados Unidos da América, o Reino Unido ou a França; estávamos lutando contra o bolchevismo.
Perto do final, ela apresentou Hunka como uma vítima inocente de assédio.
Mas os “fatos” que ela apresentou para respaldar suas palavras apenas revelaram que, no auge da Guerra Fria, muitos criminosos de guerra, inclusive integrantes da Divisão Galícia da Waffen-SS, não foram punidos pelos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido porque ainda eram considerados úteis pelas potências imperialistas.
Qual é a verdadeira história da Divisão Galícia da Waffen-SS?
Foi ninguém menos que Andriy Melnyk, líder de uma ala da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, quem propôs a Adolf Hitler, em 12 de janeiro de 1942, a criação de uma força militar de nacionalistas burgueses ucranianos para combater o bolchevismo. Após a derrota dos nazistas em Stalingrado, em fevereiro de 1943, o comando alemão acolheu muito favoravelmente a proposta de Melnyk.
Em 28 de abril, foi proclamada a formação da divisão.
Em 15 de outubro de 1943, a Divisão Galícia da Waffen-SS contava com 4.280 homens, dos quais apenas 820 eram alemães, enquanto 3.460 ucranianos integravam suas fileiras.
Em 31 de dezembro de 1943, o efetivo da divisão era de 12.634 homens. Durante o mês seguinte, outros 2.304 ucranianos ingressaram na divisão.
Entre julho e outubro de 1944, ela ficou subordinada ao comando da retaguarda do exército de campanha. Em julho de 1944, foi transferida para Brody-Tarano (Ucrânia) como parte do XIII Corpo de Exército, onde foi lançada à batalha, sofreu enormes perdas e foi praticamente aniquilada. Depois disso, restaram cerca de 3.000 homens na divisão.
Em março de 1945, foi oficialmente transferida para o comando do Exército Nacional Ucraniano (UNA). A partir de abril de 1945, passou a ser denominada 1ª Divisão Ucraniana do UNA. Em maio de 1945, rendeu-se às tropas americanas na região de Tomsweg.
A glorificação aberta da Divisão Galícia da Waffen-SS na televisão ucraniana não é um caso isolado. É o resultado de décadas de reabilitação sistemática do nazismo e de seus colaboradores ucranianos. Fascistas ucranianos e colaboracionistas nazistas como Stepan Bandera são homenageados com monumentos e nomes de ruas. Enquanto isso, apesar de o Exército Vermelho ter libertado os territórios do oeste da Ucrânia em batalhas nas quais milhares de ucranianos morreram, sua memória vem sendo deliberadamente destruída: monumentos são removidos e vandalizados, e seus túmulos são revirados.
A história já demonstrou a verdade das palavras de Marx: quando se trata de lucro, todos os meios servem ao capitalismo, até mesmo os piores crimes. E hoje, quando a própria sobrevivência do capitalismo está em jogo, tudo, como antes, fará parte do arsenal da reação. Por trás de Hunka, assim como por trás de Hitler, está o capital.
Ao justificar o fascismo, a classe dominante dos países imperialistas, assim como a oligarquia na Ucrânia, dá livre curso a novos crimes como o mundo jamais viu.
Ao glorificar os crimes dos nacionalistas burgueses ucranianos, colocando-os no mesmo nível dos antifascistas que eles enforcaram e fuzilaram e para os quais inventaram métodos de tortura cada vez mais cruéis, a classe dominante ucraniana quer justificar o uso desses mesmos métodos pelos herdeiros dos neonazistas ucranianos de hoje, que apenas trocaram de senhores, mas não de essência.
Nos acontecimentos atuais na Ucrânia, marcados pelo sangrento lema de lutar até o último ucraniano, podemos ver um reflexo da ideologia da Divisão Galícia da Waffen-SS.
Em oposição a isso, desde o início desta guerra, o Comitê Internacional da Quarta Internacional levantou a palavra de ordem pela unificação dos trabalhadores da Ucrânia e da Rússia.
Somente por meio da construção de seções do Comitê Internacional em todo o mundo, tanto na Ucrânia quanto na Rússia, somente por meio da união fraternal dos trabalhadores de todos os países, será possível pôr fim a esta guerra antes que se transforme em uma terceira guerra imperialista mundial.
