Publicado originalmente em inglês em 17 de setembro de 2026
Na terça-feira, em um evento em Washington chamado “Assembleia Pró-Humana” sobre IA, o senador Bernie Sanders, a presidente da central sindical AFL-CIO, Liz Shuler, e o presidente da Federação Americana de Professores, Randi Weingarten, discursaram na mesma tribuna que o ideólogo fascista e ex-assessor de Trump, Steve Bannon, a conspiradora do golpe de 6 de janeiro, Amy Kremer, e outros representantes da extrema direita.
Em um contexto de crescente indignação social e oposição cada vez maior a Trump e a todo o establishment político, Sanders, que representa a suposta “esquerda” do Partido Democrata, e a burocracia sindical estão estabelecendo uma plataforma comum com a direita fascista e legitimando-a politicamente. O objetivo é desorientar e desmobilizar essa oposição, além de canalizá-la para as direções mais reacionárias.
O evento foi anunciado como uma forma de reunir “diferentes perspectivas políticas” para desenvolver uma plataforma comum sobre o futuro da IA. Foi um evento somente para convidados, realizado no Marriott Marquis, a poucos quarteirões da Casa Branca, e transmitido ao vivo pela C-SPAN. Além de Sanders, Shuler e Weingarten, o painel contou com Duncan Crabtree-Ireland, do SAG-AFTRA [Sindicato dos Atores de Cinema – Federação Americana de Artistas de Televisão e Rádio], o senador democrata Richard Blumenthal e o deputado democrata Greg Casar.
Da direita republicana vieram a senadora do Tennessee Marsha Blackburn, que prometeu deportar imigrantes “seja de avião, trem ou nave espacial”, e o deputado Chip Roy, líder da bancada da Liberdade da Câmara, que disse ao público que “Deus nos deu domínio sobre este planeta”. Essa é a frente “pró-humana” à qual Sanders dá sua bênção política.
O organizador foi o Instituto Futuro da Vida (FLI), liderado pelo físico do MIT Max Tegmark. O FLI é um grupo de pressão financiado pelos mesmos bilionários que seus palestrantes denunciaram como “oligarcas”. Ele foi lançado com US$ 10 milhões de Elon Musk em 2015, e Musk fazia parte de seu conselho. O fundador da Ethereum, Vitalik Buterin, doou cerca de US$ 665 milhões em criptomoedas em 2021. Em 2022, o FLI ofereceu US$ 100 mil a uma fundação criada pelo Nya Dagbladet, um veículo de comunicação sueco que promove teorias da conspiração antissemitas.
A assembleia lançou uma “Coalizão pela IA Pró-Humana”, composta por mais de 50 organizações, voltada para as sessões legislativas estaduais em janeiro, e uma campanha intitulada “Freeze AI” (Congele a IA), com uma paralisação nacional marcada para 20 de outubro. A organização Humans First, de Kremer — cuja antecessora, Women for America First, organizou o comício de 6 de janeiro de 2021 na Ellipse —, está realizando uma turnê de ônibus chamada “Revolta do Data Center”, com 35 paradas.
O programa colocou Sanders e Bannon um ao lado do outro, e Tegmark, que atuava como mestre de cerimônias, descreveu ambos com palavras quase idênticas. Ele apresentou Sanders como um homem com “a coragem de dizer a verdade ao poder, mesmo quando isso tem um custo alto”. Minutos depois, ele apresentou Bannon como “um homem que não tem medo de dizer a verdade ao poder, mesmo que os detentores do poder realmente não gostem disso”.
Sanders começou agradecendo a Tegmark “por reunir pessoas com diferentes perspectivas políticas”. Com sua característica demagogia vazia, ele denunciou “um punhado de oligarcas”, incluindo Musk, Zuckerberg, Bezos, Thiel, Ellison e Brin, e declarou que “o povo deste país deve tomar as decisões sobre a IA”. Ele anunciou um projeto de lei, em parceria com o colega democrata Casar, para proibir a “superinteligência artificial” e suspender o desenvolvimento avançado de IA, além de exigir que as empresas de IA “parem de injetar centenas de milhões de dólares em super PACs [comitês de ação política de gastos independentes]”.
Sobre Trump, Sanders limitou-se a dizer que a “ignorância do presidente em relação a essa questão é realmente vergonhosa”. Sanders não disse uma única palavra para se distanciar do homem que aguardava para falar depois dele. Pelo contrário. Depois de agradecer aos organizadores por reunirem “diferentes perspectivas políticas”, ele cedeu o palco a um fascista como se fosse mais um entre elas.
Sanders foi, na linguagem da indústria musical, o artista de abertura, aquecendo o público para a atração principal. Por sua vez, Bannon adotou o vocabulário de Sanders, declarando em sua primeira frase: “Os cidadãos americanos não serão mais súditos dos oligarcas”.
Bannon então partiu para um discurso racista contra a China. “Devemos pegar todos os cidadãos chineses, tirá-los dos laboratórios e mandá-los de volta para a China continental”, declarou Bannon. “Podemos encerrar isso em 72 horas”, por meio de “medida executiva” em vez de legislação. Trata-se de um apelo à expulsão em massa de todos os imigrantes chineses por decreto presidencial. Sanders, que acabara de sair do palco, não disse nada naquele momento e não se pronunciou desde então.
Bannon elogiou explicitamente Sanders, declarando: “Acho que o senador Sanders fez um ótimo trabalho ao resumir o risco... Não acho que se possa encontrar dois partidários mais ferrenhos do que Bernie Sanders, à esquerda, e Steve Bannon, à direita... temos que nos elevar acima disso.” Sanders havia dito exatamente isso ao Wall Street Journal duas semanas antes: “A política é sempre uma situação em que se formam coalizões estranhas... muitas pessoas da direita têm as mesmas preocupações que eu.”
Este é o homem que organizou o golpe de 6 de janeiro a partir de seu podcast “War Room”, pediu que as cabeças dos cientistas do governo fossem colocadas “em estacas” e que, segundo sua ex-esposa, disse não querer que suas filhas “frequentassem a escola com judeus chorões”. Mas o que é um pouco de racismo, antissemitismo e fascismo entre amigos e aliados políticos?
Os dirigentes sindicais forneceram a ala “sindical” para esse festival de reação. O presidente da AFL-CIO, Shuler, disse ao público que “o movimento sindical está pronto para trabalhar com todos vocês”. A presidente da AFT, Weingarten, afirmou que, após as eleições de meio de mandato, “tanto republicanos quanto democratas e independentes” devem “se unir” . Kremer, fundadora do grupo Women for Trump, encerrou o dia: “Esta não é uma luta entre a esquerda e a direita”.
Este não é o primeiro contato de Weingarten com Bannon. Em abril de 2017, quando ele ainda era o estrategista-chefe de Trump na Casa Branca, ela se encontrou com ele secretamente em um restaurante vazio próximo à Casa Branca para discutir, entre outras coisas, o investimento dos fundos de pensão da AFT no programa de infraestrutura de Trump. Bannon, concluiu ela na época, era “um sujeito inteligente”. Durante a pandemia, ela foi além, co-organizando em 2021 um evento público com a organização de extrema direita “Open Schools USA” e Jay Bhattacharya, agora diretor do Instituto Nacional de Saúde (NIH) de Trump, para promover um “objetivo comum” de reabrir as escolas, contra a oposição de seus próprios filiados.
Esses burocratas altamente remunerados representam um aparato que está profundamente integrado às corporações e ao Estado, e que é extremamente hostil à classe trabalhadora. Nacionalista e pró-guerra, esse aparato tem muito em comum com os sindicatos corporativistas criados sob o regime de Mussolini. Sua presença em uma plataforma ao lado da direita fascista é a expressão lógica do que ele se tornou.
O significado político do evento pode ser resumido em dois aspectos.
Em primeiro lugar, no que diz respeito à própria IA, há uma campanha sistemática para desorientar e manipular as preocupações generalizadas sobre os perigos da IA nas mãos de corporações privadas e da oligarquia financeira, bem como para canalizar essas preocupações para uma campanha nacionalista contra a China.
Nenhuma das propostas apresentadas na terça-feira — desde um “congelamento” até a proibição da “superinteligência” e uma moratória sobre datas centers — aborda a questão fundamental, a saber, o controle dessas tecnologias pela oligarquia. A própria proposta de Sanders de um “fundo soberano” prevê que o Estado adquira uma participação de 50% nas empresas de IA, em uma parceria público-privada para socorrer os gigantes da tecnologia. O oligarca da tecnologia Sam Altman se ofereceu para ajudar a promovê-la.
A questão de quem controla a IA só pode ser resolvida por meio do estabelecimento da propriedade social e do controle democrático sobre a tecnologia pela classe trabalhadora, em nível internacional.
Em segundo lugar, o realinhamento político mais amplo. No que diz respeito a Sanders, ele é um homem desprovido de quaisquer princípios. Em novembro de 2016, Sanders exigiu que Trump revogasse a nomeação de “um indivíduo racista como o Sr. Bannon”. Dez anos depois, ele faz a abertura do comício para ele.
O que está em jogo, no entanto, não é apenas a trapaça de um indivíduo. Há uma lógica social e política em ação. Na aliança que vem se formando entre a burocracia sindical, a ala de Sanders e Ocasio-Cortez do Partido Democrata e setores dos Socialistas Democráticos da América (DSA) com a direita fascista, delineiam-se os contornos de um novo “nacional-socialismo” americano.
Sanders disse à assembleia que “o povo deste país deve tomar as decisões sobre a IA”. A coalizão que ele está formando para essa tarefa, no entanto, não é composta pelo “povo”, mas por executivos do aparato sindical, conspiradores fascistas, diversos representantes políticos e um senador idoso e oportunista.
As decisões sobre a IA, assim como sobre a guerra e a ditadura, devem ser e serão tomadas pela classe trabalhadora, nos Estados Unidos e internacionalmente — em oposição implacável à oligarquia, aos seus partidos e à escória política reunida em Washington.
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