A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), em 25 de outubro, transcendeu imediatamente as fronteiras nacionais, tornando-se um foco de atenção para uma ampla gama de organizações da pseudoesquerda e de partidos nominalmente de esquerda. Do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), passando pela França Insubmissa (LFI) de Jean-Luc Mélenchon até alas do Partido Democrata, incluindo os Socialistas Democráticos da América (DSA), nos Estados Unidos, o resultado brasileiro foi prontamente proclamado como uma demonstração vitoriosa de que o caminho eleitoral das “frentes amplas” é o meio de conter a onda global do fascismo e da extrema direita.
Na prática, essa comemoração significa um desvio de qualquer luta genuína contra o fascismo. Longe de representar uma derrota definitiva da reação, a vitória do PT expressou um voto defensivo das massas contra a ameaça fascista, cujo caminho foi aberto pelo próprio PT e por outros partidos burgueses “progressistas” que agora pretendem combatê-la. A tentativa de transformar a eleição de Lula em um “modelo universal” serve para obscurecer seus próprios programas de austeridade e militaristas em seus respectivos países, para os quais a pseudoesquerda fornece uma cobertura de esquerda.
O momento em que essa campanha se desenrola é decisivo. Ela ocorre em meio a uma explosão de protestos e greves, sobretudo na Espanha e na França, e após os massivos protestos “No Kings” nos Estados Unidos. Não menos importante, antecede uma série de eleições: as eleições de meio de mandato nos EUA na próxima semana, as eleições espanholas em 29 de novembro e as eleições francesas no ano que vem. A razão pela qual essas forças precisam celebrar Lula agora é precisamente porque a luta de classes está explodindo em seus próprios países — e elas precisam canalizá-la de volta para as urnas.
O precedente do apoio a Lula: a falida “Mobilização Progressista Global” em Barcelona
Essa campanha não começou com a reeleição de Lula. Nos dias 17 e 18 de abril, Sánchez e Lula convocaram a “Mobilização Progressista Global” em Barcelona, sob a bandeira da “defesa da democracia”. Como o WSWS documentou na época, não se tratava de “um encontro de opositores da austeridade, da repressão e da guerra, mas de seus administradores”.
Além de Lula e Sánchez, Hillary Clinton e Zohran Mamdani, prefeito de Nova York e membro dos DSA, enviaram vídeos para a conferência, juntamente com os democratas Chris Murphy e Tim Walz — uma demonstração do papel que os DSA e a pseudoesquerda desempenham dentro da estrutura pró-imperialista e pró-guerra do Partido Democrata.
Foi lá que Lula, em um momento de franqueza, admitiu que os governos de “esquerda” haviam implementado medidas de austeridade ao assumirem o poder: “Nós nos tornamos o sistema”. A frase resume a verdade que a comemoração atual procura ocultar. As saudações pela reeleição de Lula são a segunda rodada do mesmo processo: os administradores da austeridade e da guerra, disfarçados mais uma vez de “defensores da democracia”.
EUA: Sanders e Mamdani comemoram a reeleição de Lula
Nos Estados Unidos, a reação veio de dois representantes da mesma máquina política que atua dentro do Partido Democrata: o senador Bernie Sanders e Zohran Mamdani. Ambos se reuniram com Lula no final de setembro, antes da Assembleia Geral da ONU.
É significativo que o encontro de Mamdani com Lula tenha ocorrido pouco antes de o prefeito receber Trump na Gracie Mansion, sua residência oficial — o terceiro encontro entre os dois em dez meses. Conforme documentado pelo WSWS, “os DSA, na pessoa de seu principal representante eleito, formaram uma aliança política com Trump” — exatamente a orientação que Lula tem seguido em sua busca ativa por um acordo com o presidente americano.
No X, Bernie Sanders saudou a “vitória extraordinária” de Lula, declarando que ele havia “defendido os trabalhadores brasileiros e a democracia”. Lula respondeu agradecendo a Sanders por sua “solidariedade” e declarando que “essa vitória pertence a todo o campo progressista”.
Mamdani foi além. Ele declarou no X sua “admiração total por tudo o que Lula fez pelo povo trabalhador” e destacou o “fim da escala 6x1”: “É desse tipo de coisa que o povo trabalhador busca — uma vida mais digna, com mais descanso, com tempo para respirar”.
Essa afirmação é uma mentira descarada. A luta contra a escala 6x1 foi um movimento que se desenvolveu inteiramente a partir da base, diante da hostilidade aberta dos dirigentes do PT. O partido inicialmente se opôs à reivindicação e só a abraçou na reta final da campanha eleitoral. Essa manobra política foi coordenada com representantes odiados do Congresso Nacional, cujo objetivo para o PT não era garantir um direito da classe trabalhadora brasileira, mas reverter o declínio eleitoral de Lula em meio a uma disputa acirrada contra seu adversário fascista, Flávio Bolsonaro.
A tentativa de retratar o programa de austeridade e cortes sociais de Lula como um presente para a classe trabalhadora também ignora deliberadamente a onda de greves e protestos dos funcionários públicos federais contra essas políticas.
O papel de Sanders e dos DSA é bem conhecido e amplamente documentado pelo WSWS. Na semana anterior ao seu encontro com Lula, Sanders dividiu o palco da “Assembleia Pró-Humana” sobre IA em Washington com o ideólogo fascista Steve Bannon — que, no início da semana, após a reeleição de Lula, afirmou que Trump deveria “isolar o regime marxista de Lula até que ele concorde em anular essa eleição fraudulenta”.
Ao mesmo tempo, Sanders há muito tempo utiliza uma retórica “socialista” para encobrir a agenda de direita do Partido Democrata, mobilizando seus apoiadores para as campanhas de Hillary Clinton, Joe Biden e Kamala Harris. Já os DSA são uma fração do Partido Democrata que promove a burocracia sindical e bloqueia qualquer oposição genuína da classe trabalhadora.
Espanha: a “luz de esperança” que está se rearmando
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez (PSOE) foi o mais explícito ao exaltar a vitória de Lula. “O que aconteceu no Brasil vai acontecer na Espanha. A reviravolta progressista global acaba de começar”, escreveu ele no X. Em um comício em Gijón, declarou: “Se o Brasil consegue, a Espanha também consegue. Temos orgulho de ser a ‘aldeia gaulesa’ da Europa, uma luz de esperança em meio a tanta sombra no mundo.”
A hipocrisia é dupla. Sánchez celebra Lula como a “luta contra a extrema direita”, enquanto seu próprio governo aumenta os gastos militares a níveis recordes, ataca migrantes, impõe medidas de austeridade e financia a guerra da OTAN contra a Rússia. E a metáfora da “aldeia gaulesa” — a Espanha como a resistência de Astérix contra o Império Romano — é o quadro nacionalista que tenta substituir a luta de classes pela defesa do Estado-nação. O PSOE não é um baluarte contra o imperialismo; é parte integrante do imperialismo europeu e da OTAN.
No comício da Frente Ampla em Madri, a ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau, convocou os presentes a levantarem os braços formando o “L” de Lula: “Pela esperança. Por uma Palestina livre. Por Lula no Brasil. Pela Frente Ampla em 29 de novembro.” A invocação de uma “Palestina livre” é a fraude mais cínica de todas: o governo de Sánchez — do qual Colau e a Frente Ampla são satélites — não rompeu com Israel, não cortou o comércio de armas e continua integrado à ordem imperialista que sustenta o genocídio em Gaza. É exatamente esse tipo de “lágrima simbólica” que caracteriza essa política: retórica humanitária para encobrir a verdadeira cumplicidade.
França: a luta de Mélenchon “contra o império americano”
Mélenchon foi o que demonstrou maior entusiasmo com a eleição brasileira. Antes mesmo da apuração dos votos, ele declarou que “a vitória de Lula será a vitória do povo contra o império americano”. Posteriormente, proclamou: “Viva Lula, viva o Brasil da dignidade! Ele derrotou a extrema direita e a interferência estrangeira”.
O enquadramento “anti-imperialista” é a fraude central. O governo Lula não rompeu com o imperialismo americano; ele se adaptou a ele, sancionou a invasão e o golpe dos EUA na Venezuela e busca uma “parceria” com Washington. A formulação de Mélenchon visa substituir a luta de classes pela rivalidade entre Estados — e a própria LFI atua dentro do Estado nacional francês, uma das principais potências imperialistas do mundo.
Ex-líder e ex-ministro do Partido Socialista — um partido plenamente integrado à ordem burguesa —, Mélenchon possui um extenso histórico de hostilidade à luta de classes, particularmente em sua tentativa de sufocar o movimento dos “coletes amarelos”, de subordinação à burocracia sindical na luta contra os cortes nas aposentadorias de Macron e de nacionalismo pró-guerra.
O aspecto mais revelador da reação, no entanto, foi a tentativa explícita de exportar os métodos operacionais da campanha do PT. A imprensa europeia destacou o fenômeno da “janonização” — em referência às táticas digitais do deputado federal André Janones, cujo grupo no WhatsApp “Exército do Lula” reuniu mais de 10 milhões de pessoas na véspera do segundo turno. Na França, surgiu o grupo “Les Soldats Insoumis” (“Soldados Insubordinados”); na Espanha, grupos foram batizados de “Frenteamplistas”.
O que está sendo exportado não é um programa, mas uma técnica de marketing. A “janonização” e o “frente amplismo” reduzem a luta política a um concurso de propaganda, voltado exclusivamente para o resultado eleitoral imediato. A “mobilização digital das massas”, dissociada de qualquer conteúdo de classe, é precisamente o mecanismo pelo qual a energia das massas é contida e desviada para apoiar o Estado burguês. É a forma contemporânea de subordinação da classe trabalhadora.
O que essa técnica de marketing também esconde é o verdadeiro conteúdo da Frente Ampla de Lula: uma coalizão do PT com partidos burgueses e de direita, do reacionário vice-presidente Geraldo Alckmin aos membros do “Centrão”, que administra o Estado capitalista e impõe a austeridade exigida pelos bancos e pelos mercados financeiros.
A mensagem de felicitações de Mélenchon, no entanto, não foi a única vinda da França — o que o expõe ainda mais. Lula também foi parabenizado por Emmanuel Macron, o “presidente dos ricos” que impôs, em 2023, uma reforma previdenciária desafiando o parlamento, que tem sido um dos maiores defensores da guerra da OTAN contra a Rússia e que hoje tenta reprimir violentamente uma revolta de estudantes e trabalhadores contra seu programa de austeridade e ataques aos direitos sociais.
“Meus parabéns, @LulaOficial, pela sua reeleição. A França e o Brasil têm muito a construir juntos. Diante dos grandes desafios do nosso tempo, vamos fortalecer nossa parceria estratégica e dar vida à amizade entre nossos dois países a serviço de um mundo mais justo”, escreveu Macron no X. A relação entre Lula e Macron é de longa data: o presidente brasileiro é um interlocutor privilegiado de um dos maiores representantes do imperialismo mundial.
O fato de o mesmo Lula ser aclamado, nos mesmos termos, por Mélenchon e por Macron não é uma contradição — é a confirmação de que a “frente antifascista” de Mélenchon e o Estado imperialista francês são duas faces da mesma ordem burguesa. O enquadramento “anti-imperialista” de Mélenchon desmorona diante do fato de que o homem que ele apresenta como símbolo da luta “contra o império americano” é, ao mesmo tempo, o parceiro estratégico do imperialismo francês.
O que a reeleição de Lula representou — e o que não representou — e o caminho a seguir na luta contra o fascismo
Uma análise rigorosa do processo eleitoral revela a natureza do resultado. Lula perdeu mais de 3 milhões de votos entre o primeiro turno de 2022 e o primeiro turno desta eleição, ficando atrás de seu adversário, o senador fascista Flávio Bolsonaro. No entanto, ele conseguiu uma reviravolta sem precedentes no segundo turno, recebendo 10 milhões de votos a mais do que no primeiro (de 53,8 milhões para 64,2 milhões). Ao mesmo tempo, tanto Lula quanto Flávio eram rejeitados por cerca de 45% do eleitorado ao longo da campanha.
Esse resultado não pode ser explicado pelas conquistas do governo Lula, mas pelo medo do que um novo governo Bolsonaro representaria. Os votos do PT não refletiram um apoio entusiástico ao seu programa ou à gestão da Frente Ampla, mas uma reação defensiva e maciça diante do temor do retorno de um governo abertamente fascista. A mobilização eleitoral — especialmente entre a juventude e as camadas mais exploradas da classe trabalhadora, um fenômeno que ocorre em todo o mundo — foi impulsionada pela hostilidade popular ao avanço do autoritarismo, aos ataques aos direitos sociais e à destruição dos serviços públicos.
A premissa central compartilhada pelas organizações da pseudoesquerda mundial é que a formação de blocos sem princípios com partidos burgueses tradicionais é o único meio de “salvar a democracia” e impedir a ascensão de figuras fascistas como Donald Trump, Marine Le Pen, Santiago Abascal ou Bolsonaro. A experiência histórica e a conjuntura atual demonstram exatamente o contrário: a frente ampla não é o antídoto contra o fascismo, mas o solo fértil no qual ele cresce.
O crescimento da extrema direita em todo o mundo não é um fenômeno acidental, mas o resultado direto da falência da social-democracia e do reformismo. Quando governos rotulados como “de esquerda” ou “progressistas” — o PSOE na Espanha, o PT no Brasil, o Partido Democrata nos EUA — assumem a responsabilidade de administrar o Estado capitalista e impor pacotes de cortes nos gastos sociais, a frustração e o desespero das massas são inevitavelmente explorados por demagogos fascistas. Esse é precisamente o papel que Lula desempenha no Brasil, e que Sánchez, Mélenchon, Sanders e Mamdani desempenham em seus respectivos países.
A reeleição de Lula não vai pacificar a luta de classes no Brasil, mas sim dar início a um período de intensificação dessa luta. Os trabalhadores e jovens que votaram em Lula na esperança de melhorar suas condições de vida vão se deparar com as políticas de austeridade exigidas pelos mercados e aplicadas por sua Frente Ampla.
A tarefa que agora se apresenta não é pressionar esses governos, nem ficar à espera deles. É romper politicamente com os partidos que os administram — o Partido Democrata nos EUA, o PSOE na Espanha, o PT no Brasil, a França Insubmissa na França e seus equivalentes em todo o mundo, juntamente com seus satélites da pseudo-esquerda e a burocracia sindical. Em todos os países, é preciso construir um movimento independente da classe trabalhadora, munido de um programa socialista internacional. Essa é a única base sobre a qual se pode combater o fascismo, a ditadura e a guerra imperialista.
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