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Cliff Slaughter: uma biografia política (1928-1963)

Parte 3

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Esta biografia política de Cliff Slaughter cobre o período entre 1928 e 1963. Uma segunda seção da biografia, de 1963 até sua morte, será publicada no final do ano.

Cliff Slaughter

A luta de classes, a teoria marxista e a nova esquerda

A mesma edição da Labour Review, publicada só alguns meses após a “Conferência de Whitsuntide”, também trazia um extenso ensaio teórico de Slaughter. Intitulado “A ‘nova esquerda’ e a classe trabalhadora”, este artigo é de excepcional importância. Ele elabora as concepções filosóficas que deram base à insistência da Socialist Labour League em intervir nas lutas cotidianas da classe trabalhadora.

Para Slaughter, a característica central dos ideólogos e teóricos da emergente e cada vez mais popular “nova esquerda” era o esforço para desviar o marxismo de seu foco na luta de classes como força motriz da história.

Slaughter observou que a Labour Review e o Newsletter foram criticados por sustentar uma forma dogmática e ultrapassada de marxismo, defendendo uma “militância cega” derivada “de um modelo de sociedade capitalista simplista dividida entre empregadores e trabalhadores, em que a luta dos últimos contra os primeiros deve ser intensificada acima de tudo, ‘fechando os olhos’ para todo o resto.” Slaughter chamou a atenção para a “observação interessante” de Ralph (Rafael) Samuel – um ex-membro do Partido Comunista, amigo de E. P. Thompson e um importante representante da emergente Nova Esquerda na Grã-Bretanha – “lembrando a Gerry Healy que ‘a luta sindical não é a decisiva – decisiva é a luta pelo poder político’”. Slaughter continuou:

Certamente voltaremos à importância da luta pelo poder; entretanto, detenhamo-nos na inter-relação dos lados sindical e político da luta de classes. Esta é uma questão teórica, uma questão histórica, e sobre a qual os intelectuais deveriam trabalhar consistentemente para armar a classe trabalhadora. (…) Tire a luta sindical e que atividade “política” lhe resta? O parlamento? Vemos a França no outro lado do canal e sentimos calafrios.

É um pouco difícil ver o que resta do “marxismo” defendido por alguns círculos da Universities and Left Review e da New Reasoner. Será que eles ainda consideram como válida alguma das descobertas teóricas ou conclusões de Marx? Se sim, quais? Ou eles afirmam que apenas o método de Marx (a dialética) permanece válido e que a realidade social de hoje exige descobertas completamente novas, usando esse método. Na verdade, é de se suspeitar que a maioria desses críticos torçam o nariz para a dialética e a vejam como um remanescente de Hegel do qual o velho Marx foi incapaz de se livrar. O que resta, então?

De nossa parte, continuaremos “desacreditando-nos” afirmando que o método dialético de Marx expôs o antagonismo básico da sociedade capitalista, a luta dos trabalhadores contra os empregadores e seu Estado, refletindo a contradição entre a produção social e a apropriação privada. Defender isso, é claro, não substitui a análise detalhada e intensiva sobre as mudanças no capitalismo. Mas essas são mudanças dentro do capitalismo, e se não forem estudadas com esse fato sempre em mente – que as mudanças ocorreram dentro da estrutura constante do poder do Capital sobre o Trabalho – então tal estudo será inútil. Por inútil entendemos não apenas “praticamente” inútil para a classe trabalhadora, mas também cientificamente inútil. (…)

Do caráter histórico específico do desenvolvimento capitalista flui a luta de classes moderna. Sim, a diferenciação dentro da classe trabalhadora cresceu; sim, as novas “classes médias” cresceram; sim, a propriedade capitalista é distribuída de maneiras mais complexas. Mas, se esses desenvolvimentos forem vistos como coisas em si mesmas, seus investigadores levarão mais tempo para apreciar seu real significado histórico, que é o seu significado para a luta de classes, do que se eles reconhecessem desde o início a essência do método de Marx e a descoberta central feita por ele sobre a sociedade de classes. [53]

Slaughter começou a identificar um ponto crucial de divergência entre a Nova Esquerda e o marxismo:

É em torno do conceito de classe que se afastam do marxismo, apesar das referências vazias ao marxismo. Não há um traço sequer do marxismo, em qualquer abordagem de classe, que não tenha em seu núcleo a luta de classes. A classe trabalhadora é definida basicamente não em termos de status, renda ou quaisquer características sociais formais, mas em termos de seu necessário antagonismo à classe capitalista, derivado e constantemente desenvolvido pela posição específica do proletariado na produção capitalista. Você pode definir a classe trabalhadora de acordo com inúmeras características formais; historicamente, ela se define pelo desenvolvimento de sua organização e luta contra a burguesia. Os marxistas nas ciências sociais têm a tarefa de ajudar a classe trabalhadora a ter uma consciência mais clara de sua posição e das ações que essa posição requer. No limite, isso significa participar da maior tarefa deste período histórico: o estabelecimento da independência política da classe trabalhadora. Essa é a função importante da teoria e dos instrumentos políticos e organizativos que se baseiam na teoria; deve ser a prova de todas as contribuições teóricas dos intelectuais de esquerda. [grifo nosso] [54]

É evidente a partir dessa passagem que Slaughter fez um estudo cuidadoso dos primeiros escritos de Marx e Engels, nos quais desenvolveram a concepção materialista da história em oposição aos “críticos” pequeno-burgueses. Foi particularmente importante para Slaughter uma passagem de A sagrada família, escrita por Marx em 1844:

Não é uma questão do que este ou aquele proletário, ou mesmo todo o proletariado, considera neste momento como seu objetivo. Trata-se de saber oque é o proletariado e o que, de acordo com esse ser, será historicamente obrigado a fazer. Seu objetivo e ação histórica são visivelmente e irrevogavelmente prenunciados em sua própria condição de vida, assim como em toda a organização da sociedade burguesa hoje. [grifo do original] [55]

Um desenho contemporâneo de Karl Marx em 1839

Passando das divergências teóricas à sua expressão no programa e na prática, Slaughter atacou o reformismo mesquinho que os intelectuais da Nova Esquerda tentaram impingir como uma alternativa razoável a uma prática genuinamente revolucionária baseada na luta de classes. “O desejo de encontrar algo concreto, estabelecido dentro da sociedade atual, como uma pedra angular para o avanço futuro é fundamentalmente um ponto de vista pequeno-burguês”, escreveu Slaughter, “uma recusa a enfrentar a necessidade de uma ruptura radical com o mundo da propriedade privada, um confinamento aos horizontes do que [o sociólogo norte-americano Norman] Birnbaum chama de “tecnólogo administrativo”, que vive manipulando as coisas como elas são e que em sua vida social se aproxima da burguesia e não do proletariado. A preocupação da Universities and Left Review com o ‘socialismo no aqui e agora’ é a pior manifestação dessas ideias.” [56]

A resposta pablista à fundação da Socialist Labour League

A decisão de fundar a Socialist Labour League foi, previsivelmente, denunciada pelos pablistas. Em uma “Carta aberta às organizações do Comitê Internacional”, o Secretariado Internacional pablista afirmou:

Por ataques desmedidos contra os dirigentes do Partido Trabalhista e os sindicatos, e por sua atuação à la “terceiro período” no âmbito das bases, desconsiderando a mais elementar disciplina necessária em relação ao partido no qual, supostamente, o trabalho essencial deveria ser feito, [a Socialist Labour League] está agora destruindo todas as posições conquistadas dentro do Partido Trabalhista e dos sindicatos, em uma luta – mal escolhida tanto em termos da correlação de forças quanto em termos de momento – contra a burocracia reformista. [57]

Por trás desse ataque, havia três princípios básicos do pablismo: 1) que a Quarta Internacional só pode existir como um grupo de pressão sobre as organizações existentes controladas pelos stalinistas, socialdemocratas e partidos burgueses de “esquerda”; 2) que é simplesmente impossível para um partido revolucionário independente, baseado em um programa marxista, conquistar a direção da classe trabalhadora; e 3) que nenhuma tentativa deve ser feita para construir tal partido.

O Secretariado Internacional, justificando sua prostração oportunista, declarou que “nenhuma direção alternativa será construída essencialmente dirigindo greves militantes na frente econômica”. [58] Acrescentou, para garantir, que “nenhum partido revolucionário de massas será construído principalmente por recrutamento individual (ou seja, conquistando, por meio da propaganda ou do exemplo de ações militantes, membros individuais do partido de massas, ou grupos de 4, 5, 10, 12 membros por vez).” [59]

O Secretariado Internacional repreendeu a SLL por ter banido si mesma da Socialdemocracia:

A forma como a SLL foi lançada tornou sua existência dentro do Partido Trabalhista praticamente impossível, para qualquer um que não tenha ilusões sobre a natureza da burocracia de direita. Mas admitamos que os ingênuos fundadores da SLL foram pegos de surpresa pela proibição da Transport House [sede do Partido Trabalhista]. Essa proibição é, no entanto, um fato. Agora, se a SLL quisesse permanecer dentro do Partido Trabalhista, depois dessa proibição, teria que se dissolver sob protesto. Nada disso aconteceu. Decidiu desafiar abertamente a burocracia. Nas presentes circunstâncias, esse desafio inevitavelmente leva à expulsão [ênfase no original]. [60]

Para os pablistas, “desafiar a burocracia” era a maior de todas as loucuras políticas. A única conclusão que se poderia tirar desse argumento era a de que o apelo de Trotsky para a fundação da Quarta Internacional – desafiando a burocracia mais poderosa da história mundial – foi um erro político catastrófico. Assim, todos os esforços da Internacional pablista foram direcionados para retificar esse erro, reduzindo o movimento trotskista a nada mais do que um grupo de pressão sobre as organizações existentes das burocracias dominantes.

Em uma declaração editorial escrita por Slaughter, intitulada “Em defesa do trotskismo”, a Labour Review sustentou a perspectiva revolucionária na qual a SLL se baseava:

A Socialist Labour League não surgiu por acidente, mas a partir das lutas do último ano, que demostraram a necessidade de uma organização desse tipo para a classe trabalhadora britânica. Nasceu para intervir na experiência da classe operária, para organizar, educar e preparar a vanguarda que está tirando as lições fundamentais da ofensiva patronal, da resistência das bases e das traições de direita. Ela surgiu em um momento em que a crescente militância na indústria ainda não estava sendo introduzida no Partido Trabalhista. Surgiu para apoiar as políticas de luta de classes dentro do Partido Trabalhista e dos sindicatos, dando continuidade e levando adiante, nas condições atuais, as melhores tradições da atuação trotskista dentro das organizações de massa da classe trabalhadora.

Pablo e seu grupo de secretários internacionais não fizeram a menor tentativa de analisar ou avaliar a situação atual na Grã-Bretanha, as relações objetivas de classe, a luta sindical, a luta política, as questões e tarefas dos marxistas que daí decorrem. Este não é o método deles. Por um lado, tal análise e avaliação só poderiam ser frutíferas se elas se valessem da experiência da atividade prática do movimento marxista na Grã-Bretanha. Mas os secretários internacionais não precisam se basear na experiência de vida de ninguém. Eles têm seu esquema pronto. E isso significa subordinar a própria intervenção na luta de classes até que a pressão das massas force a burocracia ou setores dela na direção de uma revolução.

A ideia antimarxista de que a “pressão das massas” poderia mudar a natureza essencial da burocracia; a ideia antimarxista de que a “pressão das massas” poderia forçar a burocracia a acompanhar a revolução mundial; a suposição de que – novamente sob “pressão das massas” – os partidos comunistas poderiam levar a classe trabalhadora à conquista do poder: foi contra essas teorias pablistas (que são de fato a “revisão grosseira da concepção marxista de burocracia”, como caracterizou a Labour Review há quase dois anos) que os marxistas defensores dos princípios da Quarta Internacional lutaram. Não se podia fazer nenhuma concessão, pois o que estava em jogo era a própria Internacional como força revolucionária. Enquanto Pablo e seus apoiadores repetem, lado a lado com suas ideias revisionistas, frases formais sobre a necessidade da Quarta Internacional, suas ideias revisionistas na prática solapam constantemente seus próprios fundamentos. A adesão formal à Internacional destrói seu conteúdo, seu programa: isso resume o pablismo. Aqueles que propõem ideias pablistas em nome da Quarta Internacional são impostores.

Trotskistas de vários países que se opuseram a esta revisão do marxismo, portanto, criaram um Comitê Internacional para defender o programa e os princípios da Quarta Internacional contra essas pessoas que se posicionam como marxistas.

A tarefa primordial dos marxistas hoje, na visão do Comitê Internacional, é estabelecer a independência política da classe trabalhadora por meio da construção de poderosos partidos revolucionários em cada país, partidos que fornecerão as bases sólidas para a Quarta Internacional. Para que essa tarefa seja alcançada, não pode haver compromisso com as teorias de Pablo. Entre o pablismo e as ideias marxistas que orientam a atividade prática da Socialist Labour League, há um abismo intransponível. Os quadros marxistas do futuro não podem emergir sem uma luta consistente contra o pablismo. [61]

Michel Pablo (à direita) com Ernest Mandel

Rachas no Comitê Internacional

A fundação da Socialist Labour League intensificou o conflito não apenas com a burocracia sindical e o Partido Trabalhista na Grã-Bretanha. Trouxe à tona as divergências políticas dentro do Comitê Internacional da Quarta Internacional, em questões fundamentais de programa, perspectiva e orientação de classe. Na verdade, é impossível compreender e apreciar totalmente o trabalho dos trotskistas britânicos sem considerar a influência decisiva das lições que eles tiraram da cisão de 1953 e suas consequências sobre sua avaliação da situação mundial e suas implicações para o trabalho do Comitê Internacional. Essa influência, como explicamos, se expressou de forma poderosa na resposta do Clube ao discurso secreto de Khrushchev, à Revolução Húngara e à crise do Partido Comunista da Grã-Bretanha. Healy reconheceu que os eventos de 1956 não apenas deram ao movimento trotskista britânico a oportunidade de recrutar elementos insatisfeitos que estavam deixando o Partido Comunista. Muito mais importante para a formulação da estratégia política foi a confirmação histórica da oposição de Trotsky ao programa do “socialismo em um só país”, de sua análise sobre as origens do stalinismo e a degeneração burocrática da União Soviética, o caráter contrarrevolucionário da burocracia soviética e seus partidos políticos afiliados, e, portanto, da decisão de fundar a Quarta Internacional.

Em última análise, o significado essencial da crise de 1956 foi o prenúncio de uma mudança profunda na correlação mundial de forças entre a Quarta Internacional e a degenerada burocracia stalinista. Por maiores que fossem os obstáculos políticos e as dificuldades práticas enfrentadas pelas ainda pequenas forças da Quarta Internacional – e elas certamente eram muito grandes –, a crise do stalinismo significava o enfraquecimento do controle das velhas burocracias sobre a classe trabalhadora. Como declarou a Labour Review em janeiro de 1957, a “Grande Era do Gelo” havia chegado ao fim. As condições objetivas que favoreciam a resolução da crise histórica da direção da classe trabalhadora estavam surgindo. O desafio diante dos trotskistas, na Grã-Bretanha e internacionalmente, era responder, tanto em seu trabalho teórico quanto em sua atividade prática, às demandas colocadas pela nova situação.

Nesse contexto histórico e político, a luta contra o pablismo adquiriu uma urgência renovada. Após 1956, os esforços dos pablistas foram direcionados, usando uma analogia militar, para reforçar as forças sitiadas das burocracias enfraquecidas contra o perigo de uma ofensiva das forças revitalizadas do trotskismo. Os pablistas responderam à crise de 1956 buscando, sob o pretexto da reunificação (isto é, pondo fim à divisão de 1953), dividir o Comitê Internacional. As perspectivas para atingir esse objetivo – a “reunificação” da Quarta Internacional com base na subordinação às burocracias stalinista e socialdemocrata, adaptação a uma infinidade de forças radicais nacionalistas pequeno-burguesas e burguesas, o abandono da luta pela independência política da classe trabalhadora e o repúdio à teoria da revolução permanente – foram reforçados pelo giro à direita do Socialist Workers Party (SWP) nos Estados Unidos, após a cisão de 1953.

A resposta do SWP ao discurso secreto de Khrushchev e à Revolução Húngara foi muito diferente da resposta do Clube. Embora Cannon tenha feito um excelente discurso e Murry Weiss, outro membro importante, tenha escrito um ensaio bem elaborado sobre o tema do stalinismo, nada realizado nos Estados Unidos foi remotamente comparável ao trabalho político e teórico sustentado pelo Clube. Ainda que o conflito de frações e a desintegração organizativa do Partido Comunista dos EUA tenham sido muito mais severos do que na Grã-Bretanha, o SWP não recrutou quase ninguém do movimento stalinista. Isso não foi resultado simplesmente de falta de iniciativa organizativa. Pelo contrário, o SWP não respondeu aos acontecimentos de 1956 desenvolvendo a ofensiva contra o stalinismo, mas promovendo um “reagrupamento” de tendências de “esquerda” nos Estados Unidos que evitavam deliberadamente qualquer esclarecimento das questões históricas fundamentais à luta do movimento trotskista contra o stalinismo.

A própria iniciativa de reagrupamento do SWP, anunciada em dezembro de 1956, foi uma manifestação da mudança do partido de sua tradicional “orientação proletária” para uma adaptação à política de protesto da classe média americana. O clima político anticomunista repressivo, estimulado pela burocracia reacionária da AFL-CIO e pelo declínio acentuado da militância de base, certamente contribuiu para um clima de desânimo e resignação dentro da direção envelhecida do SWP. Cannon, preocupado com a ideia de que o SWP estivesse se tornando uma “seita” sem perspectivas, tornou-se suscetível a uma mudança de orientação política, distanciando-se da classe trabalhadora em direção à pequena burguesia.

A ruptura com uma existência “sectária” significou, na prática, o repúdio à orientação proletária e ao programa trotskista.

Em março de 1957, Cannon escreveu, sem consultar os trotskistas britânicos com antecedência, uma carta a Leslie Goonewardene, um dos dirigentes mais oportunistas do Partido Lanka Sama Samaja no Ceilão (mais tarde renomeado Sri Lanka). Cannon sinalizou apoio à abertura de discussões com o Secretariado Internacional, com o intuito de conseguir a reunificação das duas frações.

James P. Cannon

Esta carta marcou o início de uma prolongada luta interna dentro do Comitê Internacional. Os trotskistas britânicos rejeitaram a defesa do SWP de que uma reaproximação com os pablistas se justificava porque as diferenças que levaram à divisão em 1953 haviam sido em grande parte por questões organizativas, que as questões políticas foram de alguma forma resolvidas com o passar do tempo, e que não havia necessidade de insistir em 1953.

Enquanto a insistência britânica no esclarecimento das diferenças subjacentes à divisão de 1953 complicava as manobras do SWP, a vitória de Fidel Castro em Cuba em janeiro de 1959 era aproveitada pela organização americana para impulsionar o processo de reunificação. A alegação era de que o apoio à Revolução Cubana – que, segundo o SWP e os pablistas, havia criado um novo Estado operário – fornecia a base para realizar a reunificação.

A histórica defesa da Quarta Internacional pela Socialist Labour League (1961-1963)

Em 2 de janeiro de 1961, o Comitê Nacional da Socialist Labour League dirigiu uma carta ao Comitê Nacional do SWP. Expressou preocupação com o fato de que o SWP, em seus esforços para reunificar a Quarta Internacional, estivesse se afastando dos princípios fundamentais da Quarta Internacional que haviam sido declarados concisamente na Carta Aberta de 1953. Além disso, a alegação de que as diferenças por trás da divisão de 1953 havia sido substituída por um acordo em torno dos eventos mais recentes se baseava em uma avaliação incorreta da natureza e evolução do revisionismo pablista. Longe de se aproximar desde 1953, o abismo entre o pablismo e o trotskismo não apenas se alargou; era, teórica e politicamente, intransponível. O Comitê Nacional da SLL declarou:

O maior perigo que enfrenta o movimento revolucionário é o liquidacionismo, que surge de uma capitulação diante da força do imperialismo ou dos aparatos burocráticos do movimento operário, ou ambos. O pablismo representa, ainda mais claramente agora do que em 1953, essa tendência liquidacionista no movimento marxista internacional. No pablismo, a classe trabalhadora avançada não é mais a vanguarda da história, o centro de toda a teoria e estratégia marxista na época do imperialismo, mas o joguete de “fatores históricos mundiais”, pesquisados e avaliados de maneira abstrata. [62]

As revisões do pablismo das concepções essenciais do trotskismo e do próprio marxismo tiveram que ser rechaçadas de maneira decisiva. A SLL advertiu:

Qualquer recuo na estratégia de independência política da classe trabalhadora e da construção de partidos revolucionários significará um erro histórico mundial por parte do movimento trotskista. [63]

A SLL não aceitou a premissa de que reverter a divisão de 1953 significaria uma reunificação dos trotskistas. Isso era, insistiu, um equívoco perigoso:

É pela magnitude das oportunidades que se abrem diante do trotskismo e, portanto, pela necessidade de clareza política e teórica, que exigimos uma urgente demarcação de fronteiras com o revisionismo em todas as suas formas. É hora de pôr fim ao período em que o revisionismo pablista foi considerado uma tendência dentro do trotskismo. Se não fizermos isso, não poderemos nos preparar para as lutas revolucionárias que se aproximam. Queremos que o SWP prossiga conosco com esse espírito [ênfase no original]. [64]

A carta marcou o início de uma luta política da qual dependia, como em 1953 e, posteriormente, entre 1982 e 1986, a sobrevivência do movimento trotskista. Nessa luta intensa, que durou dois anos, de 1961 a 1963, Cliff Slaughter teve um papel crucial, como autor das mais importantes declarações e relatórios produzidos pela SLL. No entanto, deve-se ressaltar que a contribuição de Slaughter, embora substancial, não foi uma conquista realizada de forma isolada. De forma alguma diminui a alta estima do trabalho de Slaughter notar, como um fato histórico, que suas contribuições foram feitas em próxima colaboração com outros membros proeminentes da SLL, incluindo Mike Banda, Tom Kemp, Cyril Smith, Jack Gale e o ainda muito jovem Geoff Pilling. Healy proporcionou uma direção decisiva e incisiva. Ele trouxe para a luta contra o SWP um intelecto poderoso, vasta experiência política e uma determinação implacável de conquistar os trabalhadores avançados para o trotskismo e prepará-los para a direção na revolução socialista que estava por vir. O que caracterizou particularmente o trabalho teórico conduzido pela Socialist Labour League, sob a direção de Healy, foi sua conexão direta com o desenvolvimento da estratégia revolucionária e a mobilização da classe trabalhadora. Essa orientação essencial para a classe trabalhadora como uma força revolucionária transmitiu aos documentos do CIQI de 1961 sua precisão política e espírito de luta.

Cannon entendeu que a carta da SLL de 2 de janeiro era o equivalente a um tiro de advertência ao SWP. Em 12 de maio de 1961, ele escreveu para Farrell Dobbs, seu sucessor como secretário nacional do SWP: “A brecha entre nós e Gerry está obviamente se ampliando”. [65] Mas, embora afirmasse que “a SLL está em uma farra oehlerista [isto é, sectária]”, [66] o problema real era que o SWP estava tendo uma overdose de oportunismo. Em sua “Resolução sobre a situação mundial” de 1961, o SWP recorreu a sofismas pessimistas e autodestrutivos para justificar sua adaptação aos movimentos radicais pequeno-burgueses, como o liderado por Castro. Simplesmente não havia tempo suficiente, afirmava, para construir um partido revolucionário. Portanto, Castro deveria ser aceito como um substituto aceitável:

As massas, particularmente nas regiões coloniais, sentem o desespero de sua situação da maneira mais aguda. São completamente incapazes de esperar até que um partido socialista revolucionário seja construído antes de entrarem em ação. Uma vez que tais partidos não existem, exceto como pequenos núcleos, as massas, seguindo uma conhecida lei da política, empurram ao poder qualquer liderança de âmbito nacional que esteja à esquerda do partido no poder. Na falta da direção socialista – uma falta que se deve a décadas de traição dos partidos socialdemocratas e comunistas – as formações nacionalistas burguesas e pequeno-burguesas de todos os matizes ocupam posições de esquerda e são muito mais fortes do que seriam se estivessem rodeados por partidos proletários de orientação revolucionária. (…)

Cuba demonstrou o erro fatal que seria descartar antecipadamente uma formação pequeno-burguesa de orientação revolucionária simplesmente por ela partir de uma perspectiva pequeno-burguesa [67] [grifo nosso].

Castro discursando na Conferência Tricontinental em 1966, onde denunciou o trotskismo

Essa passagem exemplifica as declamações estúpidas que caracterizam os documentos do SWP. Particularmente notável aqui é a forma como o desenvolvimento do partido revolucionário e “as massas” são tratados como processos independentes. As massas, afirma-se, “são completamente incapazes de esperar” pela construção do partido revolucionário. Mas por que essa impaciência não se expressa no próprio crescimento do partido revolucionário? A impaciência das “massas” deveria indicar a existência de condições objetivas que possibilitam a construção de um partido marxista. O verdadeiro problema não era a “impaciência” das “massas”, mas a impaciência das organizações pablistas, que contornaram o problema de lutar pela direção entre as massas adaptando-se de forma oportunista a forças políticas não proletárias.

Cliff Slaughter respondeu longamente à resolução do SWP ao fazer um relato político em uma reunião do Comitê Internacional, realizada em 28-29 de julho de 1961. Apontando as implicações do revisionismo do SWP, o relato apresentava de forma concisa os elementos essenciais, tanto políticos como metodológicos, da crítica desenvolvida por Slaughter às posições do SWP:

A fraqueza fundamental da resolução do SWP é a substituição do método marxista pelo “objetivismo”, ou seja, uma falsa objetividade. Essa abordagem leva a conclusões semelhantes às dos pablistas. A partir de sua análise do imperialismo como estágio final do capitalismo, Lenin concluiu que o papel revolucionário consciente da classe trabalhadora e de seu partido era de suma importância. Os protagonistas do “objetivismo” concluem, no entanto, que a força dos “fatores objetivos” é tão grande que, independentemente da realização da direção marxista do proletariado em sua luta, a revolução da classe trabalhadora será alcançada, o poder do capitalismo será derrubado. É difícil atribuir qualquer outro significado além deste às formulações do SWP sobre a “impaciência” das massas que não podem adiar a revolução até a construção de uma direção marxista. (…) Se a direção pequeno-burguesa em Cuba foi forçada pela lógica objetiva dos acontecimentos a levar o proletariado ao poder (o SWP diz que Cuba é um “Estado operário”, o que só pode significar a ditadura do proletariado), então devemos exigir uma análise da situação mundial atual que mostre como este tipo de evento se tornou possível, segundo a qual se deve descartar a teoria leninista da relação entre classe, partido e poder.

O mesmo acontece com a formulação na resolução do SWP sobre a construção do partido revolucionário no curso da própria revolução. Novamente, as implicações da fórmula devem ser pensadas até o fim. Para nós, tais fórmulas só têm sentido sob o aspecto da perspectiva histórica geral das relações de classe. O SWP deve mostrar de que maneira “fatores objetivos” na situação mundial tornam desnecessário em alguns casos preparar e construir uma direção revolucionária. A construção de tais partidos em períodos da mais obscura reação, assim como em períodos preparatórios e pré-revolucionários, é a grande obra histórica de Lênin e seus seguidores. (…)

Uma vez que a teoria marxista básica de direção e consciência é revisada desta forma, a porta se abre para um método completamente equivocado de avaliar as tendências políticas não marxistas. Os líderes são descritos de acordo com alguma escala geral de “progressismo” ou “movimentos à esquerda” (sob pressão de forças “objetivas” irreversíveis e poderosas, é claro) em vez de seu papel de classe específico entre o imperialismo e a revolução proletária mundial. (…)

O Comitê Nacional da SLL considera essa tendência ao objetivismo como particularmente perigosa neste momento. (...) O papel dos nacionalistas burgueses, da burocracia stalinista, da socialdemocracia nas velhas potências europeias e da nova burocracia centrada na ONU, permitiram que a máquina econômica imperialista siga funcionando, apesar da necessidade de grandes concessões políticas. É uma necessidade básica a todos os marxistas manter clara oposição de classe a todas essas forças que favorecem a estabilização do imperialismo, e ao reflexo dessas forças nos oportunistas dos movimentos trabalhistas e de libertação nacional. As capitulações ao oportunismo nesta fase do desenvolvimento imperialista são o principal perigo para o partido revolucionário. Apenas uma luta consistente contra os oportunistas, e contra todos aqueles que não conseguem tirar as conclusões políticas de seu papel de classe reacionário, pode proteger o partido revolucionário da degeneração. Não desenvolver teoricamente e não compreender a contribuição de todas essas tendências às necessidades do imperialismo pode ser precisamente o início de tais concessões e perigos. A opinião do Comitê Nacional da SLL é de que o SWP corre o risco de seguir tal curso. (…)

Existem sérias consequências políticas para essas diferenças teóricas. Se a “nova realidade” da resolução do SWP inclui o reconhecimento das direções pequeno-burguesas como revolucionárias na luta do proletariado contra o imperialismo, então reconheça as conclusões práticas para os revolucionários marxistas.

Certamente está implícito que a pequena burguesia é uma classe viável com um grande destino histórico, e que o papel da vanguarda proletária consciente nesta fase é muito diferente do que pensávamos. Mais uma vez, dizemos, as revisões devem ser consideradas até suas últimas consequências, assim como Trotsky exigiu daqueles que se apressaram em caracterizar a burocracia soviética como uma classe, um órgão histórico necessário no desenvolvimento da sociedade, e não uma excrescência “acidental” no processo da revolução mundial, que elaborassem seu programa para aquela época única da história. [68]

Em 1962, quando o conflito dentro do Comitê Internacional entrava em seu segundo ano, a SLL levou a discussão a um novo nível, submetendo a metodologia teórica do pablismo e do SWP a uma análise crítica – talvez “devastadora” seja a palavra mais apropriada. Um editorial da Labour Review escrito por Slaughter e Banda, intitulado “Uma caricatura do marxismo”, analisa as cartas de Pablo a Castro e Ben Bella (o líder da nacionalista burguesa FLN na Argélia) expondo o impressionismo crasso deste teórico do revisionismo e o seu abandono dos elementos mais básicos da análise materialista histórica:

As cartas de Pablo a Castro e à FLN caem na categoria de sacrifício do partido revolucionário, da teoria revolucionária e, portanto, da independência política da classe trabalhadora, às direções pequeno-burguesas do movimento nacional. Essas cartas são, na melhor das hipóteses, apelos a Castro e aos líderes da FLN para que “façam uma escolha” entre o socialismo ou as garras do imperialismo. O materialismo histórico foi esquecido; aqui não há nada que aponte a necessidade de que cada classe definida forje sua própria teoria e organização políticas. Uma mudança de opinião por parte dos detentores do poder pode mudar o curso da história. [69]

Slaughter e Banda chamaram a atenção para uma passagem em que Pablo afirmava que não só o futuro da Argélia, mas também de todos os novos Estados independentes da África dependia “do uso que essas elites politicamente limitadas darão ao poder do Estado”. [70] Assim, aumenta a esperança de que Ben Bella e outros sigam o conselho do grande Pablo e concedam o socialismo como um presente às massas, sem luta revolucionária independente nem a criação de organismos de poder da classe trabalhadora.

Outros exemplos foram dados da humilhação de Pablo diante de Castro:

Em vez de analisar as necessidades da classe trabalhadora para a conquista do poder sob a direção de um partido marxista, Pablo faz adulações a Castro, a quem escreve: “Estou convencido de que estamos presenciando uma liderança socialista revolucionária de alto nível intelectual e prático... você pertence de fato à linha dos grandes revolucionários que souberam descobrir, assimilar, interpretar e desenvolver o marxismo de forma criativa e profundamente revolucionária, como Rosa Luxemburgo, Lenin, Leon Trotsky, e em certos campos, os revolucionários iugoslavos e chineses”. Todo senso de proporção, sem falar na análise marxista, é ignorado. (...)

Não podemos nos deter nas passagens cômicas da carta de Paulo. Algumas são quase inacreditáveis. Por exemplo, ele prevê grandes reformas sociais, incluindo “melhorias até mesmo da qualidade do material humano por meio de uma eugenia inteligente cada vez mais voluntariamente aceita”. (E antes de ser aceita voluntariamente?!) [71]

O editorial foi concluído com uma condenação da metodologia falida de Pablo:

Em vez de análise concreta, comparação abstrata. Em vez de estratégia, otimismo crasso (“As conquistas da Revolução Cubana até agora, a qualidade e o espírito crítico de sua direção permitem um otimismo mais do que razoável no plano da luta contra a burocracia e a burocratização.”) Em vez de uma perspectiva de trabalho para os revolucionários na classe operária, a abdicação da responsabilidade àqueles dirigentes que recebem apoio espontâneo das massas no primeiro estágio da revolta nacional, por exemplo, a Castro: “É também nisso que reside a sua responsabilidade suprema perante a história.” “Sobre a direção desta revolução repousa a imensa tarefa histórica de fazer o melhor uso dessas oportunidades, para o benefício das massas cubanas e de todo o mundo.”

Apesar de toda a conversa sobre luta contra a burocracia, temos a mentalidade burocrática por excelência. Em vez da luta cotidiana da classe trabalhadora para construir sua própria direção, permitindo que as massas determinem conscientemente o curso da história, pedimos a Castro e outros para “fazer o uso mais sábio” das oportunidades “em benefício das massas”.

As cartas de Pablo não são cartas de um trotskista em nenhum sentido. Elas nada mais são do que uma tentativa comicamente malsucedida de encobrir uma capitulação teórica e prática às direções existentes dos movimentos nacionais. Essa rendição tem sua contrapartida na atitude dos pablistas em relação aos burocratas socialdemocratas e stalinistas em outras partes do mundo. [72]

Revendo essas passagens quase 60 anos depois de terem sido escritas, e com a vantagem de saber o que se daria no futuro, pode parecer ao leitor contemporâneo nada menos que surpreendente que o SWP pudesse ter defendido as baboseiras de Pablo como uma análise trotskista válida, ou que o SWP pudesse ter insistido na ideia de que as diferenças políticas da divisão de 1953 haviam sido resolvidas. Mas a virada do SWP para o pablismo foi determinada não pela qualidade dos argumentos dos dirigentes revisionistas, mas pelas pressões objetivas exercidas sobre o SWP pelo imperialismo americano e por sua adaptação à orientação política da classe média radical.

Notas:

[53] “'New Left' and Working Class”, Labour Review, julho-agosto de 1959, Vol. 4, nº 2, p. 50.

[54] Ibid.

[55] Marx-Engels Collected Works (New York: International Publishers, 1975), Vol. 4, p. 37.

[56] Ibid., Pp. 51-52.

[57] Citado em International Bulletin of the International Secretariat, abril de 1959, em Labour Review, julho-agosto de 1959, vol. 4, n. 2, p. 33.

[58] Documento disponível aqui.

[59] Ibid.

[60] Ibid.

[61] Labour Review, julho-agosto de 1959, Vol. 4, nº 2, p. 38.

[62] Trotskism Versus Revisionism: A Documentary History, Vol. 3 (London: New Park Publications, 1974), p. 48.

[63] Ibidem, p. 49.

[64] Ibid.

[65] Ibidem, p. 71

[66] Ibidem, 73.

[67] Ibid., pp. 97-98

[68] Ibid., pp. 161-69.

[69] Labour Review, Vol. 7, nº 1, Primavera de 1962, p. 5

[70] Ibid.

[71] Ibid., pp. 6-7.

[72] Ibid.

(Texto publicado originalmente em inglês em 6 de agosto de 2021)

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